Ventos de mudança na Latinoamérica

MERCOSUL À ESPERA DO «SALVADOR» LULA

Para os economistas argentinos, o presidente eleito do Brasil é a última oportunidade para o renascimento estratégico económico e político do projecto dos quatro países da América do Sul.

Jorge Nascimento Rodrigues em Buenos Aires com Silvia Chauvin, numa Mesa Redonda promovida pela Janelanaweb.com e Mujeresdeempresa.com, em 2 de Dezembro de 2002

Foi uma semana agitada no Cone Sul com a visita relâmpago de Luiz Inácio "Lula" da Silva, o presidente eleito do Brasil, à Argentina e ao Chile e com a realização em Brasília da cimeira dos dez presidentes do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai), do Pacto Andino (Venezuela, Equador, Peru e Colômbia) e do Chile e Bolívia, em que o anfitrião ainda foi o presidente cessante Fernando Henrique Cardoso.

O facto do Mercosul ter renascido das cinzas, com as declarações de "Lula" sobre a sua aposta estratégica na reanimação económica e política daquele bloco, gerou uma vaga de esperança entre os economistas argentinos e baralhou, de novo, o jogo de cartas no Atlântico Sul face à ofensiva "neo-imperial" da Administração Bush.

O presidente eleito do Brasil vê o Mercosul como "alavanca" de alianças mais amplas na América Latina e como plataforma de negociação de "uma política externa comum" face aos Estados Unidos

O presidente eleito do Brasil vê o Mercosul como "alavanca" de alianças mais amplas na América Latina e como plataforma de negociação de "uma política externa comum" face aos Estados Unidos, nomeadamente no âmbito da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas prevista para 2005), à União Europeia e aos próprios organismos multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional e a Organização Mundial de Comércio.

2003 vai ser um ano crítico nas negociações da ALCA liderada por uma co-presidência dos Estados Unidos com o Brasil. «Quando muitos já pressagiavam a morte anunciada às mãos da ALCA, mais uma vez, como a fénix, o Mercosul renasceu das suas cinzas», diz-nos Susana Orsino, uma das mais conceituadas especialistas em comércio internacional na Argentina, com um grande envolvimento no projecto do Mercosul. Susana Orsino sublinha, ainda, a clara intenção estratégica do novo presidente do Brasil em ultrapassar os muros do projecto inicial do Mercosul colado, no princípio, a uma ideia de «união aduaneira com algumas excepções e regimes especiais e uma série de dificuldades nas relações intra e extra Mercosul».

Mudança de cenário

Ao contrário, do que alguns prognósticos poderiam alvitrar depois do progresso de negociações na reunião ministerial de Quito em 1 de Novembro passado, «a ALCA vai ter de se conformar a um cenário diferente», refere-nos Félix Peña, director do Instituto de Comércio Internacional da Fundação BankBoston na Argentina. «Com a vitória de 'Lula' no Brasil, reganhou força a ideia de um acordo 4+1 entre os quatro países do Mercosul e os Estados Unidos», sublinha. Esta seria a peça fundamental que falta como pilar prévio à ALCA, pois os Estados Unidos têm já acordos bilaterais com diversos países latino-americanos, incluindo "não-alinhados" (como o Chile), para além do acordo estratégico com o Canadá e o México no âmbito da NAFTA (Área de Comércio Livre da América do Norte).

A escolha da Argentina como primeiro país que visitou, depois da sua eleição, é interpretada como a retoma da geo-estratégia regional do Brasil iniciada em 1986, em que a aliança estreita com a Argentina assume papel preponderante

O novo líder brasileiro encara, também, essa plataforma como uma base para a adaptação de um projecto político democrático similar ao do "modelo" da União Europeia. No meio de um almoço de melão com presunto, como entrada, e de cabrito patagónico, uma das iguarias mais apreciadas, "Lula" revelou na Quinta de Olivos, residência presidencial argentina, dois "sonhos" - o de um futuro Parlamento do Mercosul eleito por voto popular e que legisle vinculativamente sobre todos os temas da integração regional, e o de uma moeda comum «que imunize as economias contra as turbulências financeiras internacionais».

A escolha da Argentina como primeiro país que visitou, depois da sua eleição, é interpretada como a retoma da geo-estratégia regional do Brasil iniciada em 1986, em que a aliança estreita com a Argentina assume papel preponderante, apesar da existência, hoje em dia, de diversas vozes no país das Pampas - correntes ligadas ao ex-presidente Carlos Menem, tido como forte candidato nas próximas eleições de 17 de Abril de 2003 - e no Brasil por um relacionamento estratégico bilateral com os Estados Unidos, implicando um maior distanciamento em relação à União Europeia.

Comportamento obsceno

O espaço europeu, em particular a Espanha - o suposto aliado privilegiado da América Latina -, tem sofrido diversas críticas em virtude do papel dos governos de Felipe González e de José María Aznar, do estratego Rodrigo Rato e das multinacionais espanholas no que é designado pelo "saque" e "esvaziamento" da Argentina em particular na última década.

Livros como «Los nuevos conquistadores», de Daniel Cecchini e Jorge Zicolillo, e «La Argentina Robada», de Mario Cafiero e Javier Llorens, são o mais recente grito de revolta contra o "vaciamiento de Argentina", em que os europeus, e em particular Madrid, são os principais protagonistas, num período de mais de uma década em que os Estados Unidos pareceram estar "distraídos" em relação ao Sul.

O "amigo" europeu parece cada vez mais afastado, apesar dos discursos gongóricos nas cimeiras ibero-americanas.

«O Mercosul não parece constituir uma das prioridades da agenda externa da União Europeia, que não demonstra grande abertura em negociar temas sensíveis como os subsídios e o acesso ao mercado europeu», lamenta Orsino, que trabalhou vários anos na Europa em temas ligados ao Mercosul. Ideia que é reforçada por Félix Peña: «Persiste a sensação de que a Europa, incluindo Espanha e Portugal, só aceitará avançar nas negociações com o Mercosul como reacção aos avanços que se produzirem nas relações com os Estados Unidos». O que significaria uma falta de vontade estratégica por parte da União Europeia e uma tendência para reacções tácticas sem grande consistência.

Hugo Varsky, presidente do Comité Internacional do Clube das Regiões (El Club de las Regiones, que abrange regiões da América Latina e da Europa) e responsável pela Fundación Garantizar el Desarrollo, que agrupa mais de 1000 sócios empresariais, é mais crítico ainda: «Encontramos na Europa uma grande desorientação em relação ao que fazer com a América Latina. Blair, Aznar e Berlusconi têm dado a ideia que a região latino-americana já teria um 'dono'. Alguns jornais espanhóis diziam ainda recentemente que era um desperdício de dinheiro as cimeiras ibero-americanas».

Varsky classifica inclusive o comportamento europeu como "obsceno" em muitos aspectos. «Com uma mão diz-se nossa aliada, mas com a outra, de um modo sórdido, exige ao FMI que nos aperte, como agora com o aumento das tarifas dos serviços públicos, que ficaram em mãos de multinacionais espanholas, francesas e italianas, depois das privatizações».

Apesar deste "alheamento" europeu, o Mercosul abriu, recentemente. um escritório em Berlim, a funcionar na embaixada do Brasil na Alemanha. Trata-se do primeiro centro de promoção comercial deste bloco no mundo. O Centro em Berlim prepara uma primeira missão comercial à Europa para o início de 2003. O escritório é um projecto piloto que poderá originar outras "implantações" nos Estados Unidos e na Ásia.

Epílogo

A parceria estratégica entre a Argentina e o Brasil dará um passo importante em 14 de Janeiro de 2003, quando os ministros dos negócios estrangeiros e da economia dos dois países, já depois da tomada de posse por "Lula", aprofundarem em Brasília várias áreas - como a integração macroeconómica e política, as estratégias industriais e agrícolas comuns (o Brasil quer avançar, por exemplo, com a ideia de uma "moeda verde" no quadro de compensações no comércio agrícola e o desenvolvimento dos "clusters" regionais na área do automóvel), o comércio mútuo que bateu no fundo este ano (o valor mais baixo desde 1994 quando em Ouro Preto se consagrou o comércio livre regional) e as relações com os Estados Unidos e a Europa.

Os dois países pretenderão ir avançando por sua conta a agenda do Mercosul, ainda que o presidente argentino Eduardo Duhalde esteja a prazo, com saída marcada para 25 de Maio do próximo ano. Fala-se, também, na definição de uma estratégia comum face ao FMI e na formação de um Instituto Macroeconómico do Mercosul que defina metas de estabilidade monetária e de disciplina fiscal.

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