Europa-Mercosul

Um triângulo estratégico a desenvolver

Brasil e Argentina são dois pilares fundamentais do Mercosul e a Península Ibérica é o interlocutor por excelência no outro lado do Atlântico

Mesa Redonda organizada em Buenos Aires a 5/12/2001 por Jorge Nascimento Rodrigues com o apoio de Silvia Chauvin, editora de www.mujeresdeempresa.com

El Club de Las Regiones
Conferência de Regiões Periféricas Marítimas da Europa
Como o Norte de Portugal vê a oportunidade do Mercosul e da Argentina

O Mercosul espera que a Europa, e em particular a Península Ibérica, passe das palavras dos discursos dos muitos encontros já realizados aos actos de uma aliança estratégica atlântica que privilegie o investimento directo estrangeiro com vocação exportadora, a abertura dos mercados comunitários aos produtos competitivos daquele espaço regional e a ajuda num momento difícil de crise aguda na Argentina e de perigo de contágio nos vizinhos.

Muitas expectativas são colocadas no semestre de presidência da União Europeia pela Espanha que decorrerá a partir de 1 de Janeiro de 2002, e nomeadamente na Cimeira de Madrid entre os dois "blocos" económicos, a Comunidade Europeia e o Mercosul, em Maio próximo.

Apoiar Vocação Exportadora - missão do IDE europeu

«O mínimo que podemos esperar é o apoio e compreensão dos europeus», referiu-nos Félix Peña, director da Fundação BankBoston, em Buenos Aires, e que foi subsecretário para o Mercosul e a integração económica do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Argentina. Ele aguarda um bom resultado do semestre espanhol. «Espero que não seja uma coisa vaga, e que haja a preocupação dos investimentos europeus, e em particular ibéricos, serem orientados, de futuro, para a exportação», frisou na mesa redonda promovida em Buenos Aires, no princípio do mês de Dezembro de 2001 (antes dos acontecimentos turbulentos terem ganho as ruas da capital).

A necessidade da Europa apoiar o desenvolvimento da vocação exportadora do Mercosul - e em particular de países como o Brasil e a Argentina que apenas exportam 11% do seu PNB - é, também, sublinhada por Marta Bekerman, directora do Centro de Estudos da Estrutura Económica, do Instituto de Investigações Económicas, da Faculdade de Ciências Económicas da Universidade de Buenos Aires. Marta dirige um Centro que é referência no âmbito do estudo da coordenação das políticas de reconversão industrial e tecnológica do Mercosul.

Este espaço económico - que agrupa a Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai - realizou a 20 e 21 de Dezembro uma Cimeira em Montevideo no meio de uma forte turbulência social e política na Argentina, de uma indefinição estratégica do seu posicionamento face ao projecto norte-americano de uma Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), e de dificuldades internas que têm tolhido a sua eficácia. Félix Peña não crê que o Mercosul "esteja tão mal quanto se diz", mas vê como indispensável uma "flexibilização" das regras do jogo dentro deste espaço e Marta Bekerman adiantou inclusive a necessidade de "estudar ainda mais a experiência europeia", indo inclusive ao ponto de alvitrar uma hipótese de estudo de "uma moeda única".

Evitar Cenário de "Maquilladora" no seio da ALCA

A defesa da ALCA pelos Estados Unidos coloca problemas geo-estratégicos complexos ao Mercosul. A adesão do México à NAFTA e a estratégia policêntrica do Chile que não aderiu ao Mercosul - procurando explorar o seu cosmopolitismo e as suas relações com os Estados Unidos, com o Pacífico e com a Europa -, colocam algumas interrogações sobre a viabilidade daquele espaço no Cone Sul, a que se junta algum mal-estar por parte dos países aderentes mais pequenos, como o Uruguai. «Se não houver um Mercosul poderoso, vamos assistir à ampliação do modelo mexicano das 'maquilladoras' por todo o continente», teme Hugo Varsky, presidente do Comité Internacional do Clube das Regiões (El Club de las Regiones) e secretário do Programa Bolívar, sediado em Buenos Aires.

A Europa surge como o aliado estratégico para evitar aquele cenário. «Será que a Europa se vai contentar com a proclamação dos laços culturais ou oferecerá uma alternativa ao face a face unilateral do Mercosul com os Estados Unidos?», interrogou-se, por seu lado, Xavier Gizard, um francês que é secretário geral da Conferência das Regiões Periféricas Marítimas da Europa (CRPM), uma entidade que tem desenvolvido uma sólida parceria estratégica com o Clube das Regiões. Gizard vê a dimensão atlântica como uma componente fundamental da geo-estratégia ligando a Europa com a América Latina. «No programa de cooperação das 35 regiões e dos 5 estados da fachada atlântica europeia, para o período 2002-2006, há, pela primeira vez, um importante vector de desenvolvimento da cooperação com o outro lado do Atlântico», afirmou o secretário geral da CRPM.

Regiões são Interlocutores de Proximidade

Hugo Varsky acentuou inclusive que a dimensão regional é, em última instância, mais eficaz, no terreno do concreto, do que a relação institucional entre Estados e "blocos". A razão de criação do Clube das Regiões, a que preside, deriva exactamente dessa constatação: «As regiões são hoje interlocutores de proximidade com legitimidade democrática entre espaços económicos e desempenham o papel de alavancas no desenvolvimento da competitividade social dos tecidos empresariais concretos, que são, esmagadoramente, formados por PME».

O Clube envolve hoje 24 províncias, municípios, estados em países federais e agrupamentos de regiões da Argentina, Bolívia, Paraguai, México, Brasil, Venezuela e Chile, a que aderiram a Galiza e o País Vasco espanhol, na Península Ibérica. Um acordo estreito foi firmado com a CRPM europeia que agrupa 145 membros e prevê para 2002 várias realizações em sinergia, como uma "Expo-Europa" em Curitiba (Brasil) em Fevereiro do próximo ano, um evento denominado "ALinvest" na região de La Loire em França, um Forum Bolívar em Bilbau no final do ano e um programa de intercâmbio universitário sob a égide da Comunidade Autónoma de Murcia (Espanha). Está em estudo, também, com apoio da CRPM europeia um projecto de incubadora. Para 2003 há em vista a organização em conjunto com a OCDE de uma Conferência Mundial sobre as Regiões e a Globalização.

A ideia desta aposta nos laços entre regiões deriva da necessidade de responder «ao movimento espontâneo a favor das concentrações megapolistas», referiu-nos Xavier Gizard. O que está em jogo é uma "maior democratização da globalização" e um «combate a um conceito elitista no diálogo internacional», concluiu, por seu lado, Hugo Varsky.

NORTE DE PORTUGAL OLHA A SUL
A fachada atlântica galaico-portuguesa é a frente marítima europeia que pode desempenhar um papel estratégico no relacionamento com a América Latina, sublinhou-nos Xavier Gizard, secretário geral da Conferência de Regiões Periféricas e Marítimas de Europa (CRPM). A interrogação feita por este responsável tem toda a legitimidade: «Porque razão as trocas com o outro lado do Atlântico continuam a privilegiar os portos do Norte da Europa?».
No sentido da valorização da fachada atlântica galaico-portuguesa têm-se movimentado os portos de Vigo, Leixões e Sines (onde se envolveu a Autoridade do Porto de Singapura, um dos eixos estratégicos da Ásia/Pacífico). Não é, também, por acaso, que a Xunta de Galicia, e o seu presidente Fraga Irribarne, acarinhou em Santiago de Compostela a criação do Clube das Regiões (El Club de las Regiones) em 2000 e tem defendido uma estreita relação entre a "costela" latino americana do Clube e a "costela" ibérica, que desempenha um papel importante na CRPM e no Arco Atlântico, no seio da Europa. O Clube das Regiões conta como membros europeus com a Galiza e o País Basco espanhol e tem delegações promotoras em Portugal, França, Itália e República Checa.
A euroregião Norte de Portugal-Galiza tem todas as vantagens em olhar para o Sul do Atlântico, «operacionalizando uma cumplicidade estratégica com o Mercosul, e em particular com os espaços Codesul (que envolve quatro estados do Sul do Brasil) e Crecenea (Comissão Regional de Comércio Externo do Nordeste da Argentina, que envolve seis províncias), procurando criar uma verdadeira rede de cooperação estratégica», refere-nos, por seu lado, Jaime Quesado, director-executivo da Agência para o Investimento no Norte de Portugal (AINP).
Neste sentido, a AINP tem promovido uma interligação de "clusters" portugueses com seus congéneres no Brasil e Argentina, objectivo que ficou reafirmado por ocasião da última Assembleia Geral da CRPM que decorreu em Setembro passado no Porto. O sector dos componentes automóvel é um dos mais em foco com a presença de empresas portuguesas no Sul do Brasil - casos da Simoldes, Sunviauto, Tavol, PBOL, Frezite, Sodecia e Cabelauto. «Pretende-se, também, que o projecto Pininfarina tenha em Curitiba, no Brasil, uma experiência piloto de abordagem do Mercosul», salienta Jaime Quesado. No campo das tecnologias de informação está a ser dinamizada uma rede de parceria estratégica entre Aveiro e Braga e as regiões de Recife, São Paulo e Buenos Aires.
No campo do investimento directo entre Portugal e a Argentina é de referir a próxima implantação da Edival, empresa argentina que é o terceiro maior produtor de válvulas do mundo, em Braga. Por outro lado, há uma presença portuguesa em "clusters" tradicionais argentinos com unidades de produção no terreno, como a Sogrape, na região vitivinícola de Mendoza, a Faiarte, na porcelana, em Santa Fé, a Mota/Engil, construção civil, em Buenos Aires, e a Álvaro Coelho, na cortiça, também em Mendoza.
A Agência Portuguesa de Inovação em conjugação com o Clube das Regiões e a Fundação Empresa-Universidade Galega (FEUGA) preparam o lançamento de um primeiro centro tecnológico na Internet que permita a cooperação entre empresas e comunidades de investigação & desenvolvimento.

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