O ARDINA NA CRISE ARGENTINA (2001)
PARTE II

O último tango de El Mingo

"Mingo" é o diminutivo de Domingo Cavallo, o ministro da Economia do governo argentino até 20 de Dezembro de 2001, responsável por um conjunto de medidas financeiras que não satisfizeram as exigências do FMI nem acalmaram os políticos e o cidadão da rua. A cabeça de Cavallo era pedida pela maioria dos sectores políticos e sindicais e por alguns "lobbies" argentinos e o Fundo em Washington jogou um tira-retira o tapete. Depois de ter sido superministro da Economia de Carlos Menem nos anos 90 e de ter granjeado reputação internacional, Mingo dançou no Palacio de Hacienda o seu último tango em Dezembro.

Jorge Nascimento Rodrigues em Buenos Aires entre 30 de Novembro
e 7 de Dezembro de 2001 (actualizações posteriores)

Versão reduzida publicada no Expresso de 14/12/2001

Entrevista anterior de 1998 com Domingo Cavallo

A contagem decrescente já começou. O primeiro dia "D" de vencimento de compromissos da dívida argentina foi no dia 14 de Dezembro (2001), com o vencimento de 700 milhões em "letes" (letras de Tesouro, títulos do Tesouro), e o período crítico vai estender-se até quase final do mês. Uma vez mais uma sexta-feira - depois da já denominada "fatídica" sexta-feira, 30 de Novembro, em que aparentemente o sistema bancário esteve à beira do colapso, em virtude de um disparo na fuga de capitais.

A palavra mais repetida esta semana foi "default" - ou seja, risco de incumprimento do serviço da dívida por parte da Argentina. A Goldman Sachs distribuiu um relatório em que fala de uma probabilidade de 70% de acontecer um incumprimento "desordenado", com um país em tumulto político e sindical e com a total incapacidade do Presidente Fernando De La Rúa e do seu ministro da Economia, Domingo Cavallo, em manobrar a situação.

"Viernes" negro

O estrangeiro chegado a Buenos Aires na última sexta-feira de Novembro é apanhado, ainda no aeroporto, pelos rumores num dos diários económicos (Ámbito Financiero) de que estava em preparação um pacote de "congelamento" bancário em virtude da espantosa quebra de depósitos nos bancos e das reservas de ouro e divisas no Banco Central desde Janeiro deste ano. Estima-se que uns 15 mil milhões de pesos e dólares tenham saído das contas e que uns 9 mil milhões tenham "desaparecido" das reservas em ouro e divisas em 11 meses, segundo dados divulgados pelo diário La Nación. Em suma, uns 26 mil milhões de euros sumiram.

No sábado de manhã os números desta "sexta-feira" fatídica - que os analistas baptizaram de "viernes negro" - vêm a lume: estima-se em 1,3 mil milhões a fuga de pesos e dólares dos bancos e as reservas de ouro e divisas terão caído de 1,7 mil milhões de dólares, segundo a revista The Economist. Só num dia, 3,4 mil milhões de euros mudaram provavelmente de país ou para debaixo dos "colchões" em casa. Foi o "salve-se quem puder" numa dimensão jamais vista, dizem os sociólogos. No Uruguai, o país vizinho transformado em plataforma financeira transfronteiriça à distância de uma viagem de barco, a azáfama foi enorme, testemunham as reportagens.

O "corralito" bancário

O governo reagiu apavorado no fim-de-semana. Domingo Cavallo - conhecido por Mingo, o seu diminutivo italiano - tirou da cartola um plano, que tem sido divulgado, a conta-gotas, com aparentes avanços e recuos, e com algumas cenas caricatas à mistura, como o ministro da Economia pedindo "perdão" na televisão, a mulher dele (Sonia Abrazián) zurzindo nos críticos ou o porta-voz do presidente da República em directo na TV a gritar com uma vizinha zangada.

Mingo começou com o congelamento dos depósitos e a restrição ao uso de dinheiro vivo. A medida foi alcunhada de "corralito" - um curralzinho para o dinheiro dos cidadãos, sobretudo da classe média baixa, dos assalariados e dos pensionistas (os grupos sociais que não conseguiram colocar a salvo as economias no estrangeiro), que permita manter algum colchão financeiro no sistema bancário argentino, onde o Governo possa ir buscar a "guita" necessária para o pagamento dos compromissos da dívida.

Isso está a valer-lhe ser alcunhado de "Robin Hood" de sentido inverso (tirar aos pobres para pagar a dívida externa) e de responsável por agravar a recessão no consumo - com pouco dinheiro no bolso, não habituados a usar o dinheiro de plástico, os cidadãos contam os centavos e estariam a comprar 30 a 40% menos.

O aspirador de recursos

O lançamento de um processo de bancarização forçada (obrigando quase toda a gente a ter conta bancária) visa, teoricamente, diminuir drasticamente a economia informal, permitindo ao Estado arrecadar impostos e fazer passar as transações pelo sistema bancário. Mas os encargos dessa passagem equivaleriam, para as microempresas e PME, a um acréscimo de 50% nos custos laborais, o que provocará aumento das falências e do desemprego.

Entretanto, o FMI retira o tapete a Cavallo na primeira semana de Dezembro, anunciando que não estava disposto a desbloquear, ainda este mês, uma "tranche" de empréstimo de 1,26 mil milhões de dólares (1,4 mil milhões de euros), a que se colaria mais uma verba superior a 1,1 mil milhões por parte do Banco Mundial, do Banco Inter-Americano de Desenvolvimento (BID) e de Espanha. Mingo viaja para Washington no fim-de-semana seguinte e traz novas "sugestões" do FMI.

A ideia é ver, agora, como colocar o sistema produtivo argentino a contribuir para a solvência fiscal do Estado. Os empresários começam a alcunhar Cavallo de "Mingo-aspirador". Uma das medidas divulgadas esta semana visa reanalisar as isenções fiscais às empresas, concedidas ao abrigo de um denominado "Plano de Competitividade" lançado em Maio passado, e que já envolvia 31.167 empresas. Mingo tenta, no entanto, poupar o sector exportador a esta medida.

Maquinetas de "moneda bastarda"

Um dos objectivos políticos do ministro da Economia - nomeado pelo presidente De La Rúa em Março, num mês em que, em apenas 18 dias, passaram três ministros pela pasta - é chegar ao "défice zero" e moderar significativamente o gasto público.

Mas trata-se de uma missão quase impossível num país em que o aparato político clientelar é muito pesado e em que os governadores das províncias emitem, a seu bel-prazer, "moneda bastarda", ou seja uns títulos que funcionam como pagamento de ordenados e moeda corrente no consumo. Nas montras de lojas e restaurantes da capital argentina vêm-se afixados os avisos "Aceitam-se patacones".

Os analistas falam de províncias "empapeladas" em "patacones" (os mais conhecidos, emitidos pelo governo da Província de Buenos Aires), "quebrado" (que circula na província de Chaco), Lecor (que funciona na província de Córdoba) e "bocade" (que é emitido na província de Tucumán), só para citar alguns.

No conjunto, este "darle a la maquinita" (dar à maquineta de fazer substitutos do dinheiro) deve somar hoje em dia uns 2,9 mil milhões de dólares (3,2 mil milhões de euros), mais de 10% do PIB argentino. Ainda esta semana terá sido feita uma emissão extraordinária de "patacones". Os governadores provinciais são uma das principais forças a reclamar a cabeça de Cavallo, exigindo inclusive mais margem de manobra para a emissão "keynesiana" de títulos.

Os dois "D"

O debate aquece, agora, em torno de dois "D" - ou a dolarização de jure, com a morte definitiva do peso, em que parece apostar progressivamente o ministro Cavallo, ou a desvalorização, através de uma flutuação do peso, que poderia conduzir a uma quebra imediata do valor cambial em relação ao dólar na ordem dos 15 a 30%.

Os "lobbies" económicos alinham-se em torno de cada uma das opções. Um denominado "Núcleo Nacional", que envolve a União Industrial Argentina, os construtores civis, a central sindical oficial, as confederações rurais e o sistema bancário argentino, aposta na desvalorização, que favoreceria o bloco exportador. Segundo acusou o ministro, alguns fundos internacionais especulativos ("fondos buitres", "abutres", como os designou) têm jogado forte nesta hipótese. Mas os custos sociais seriam pesados - nos rendimentos pessoais e nos salários em pesos e na actualização das dívidas em dólares.

Por outro lado, o Conselho Empresarial Argentino, que agrupa a banca estrangeira, as multinacionais e os grupos privatizados, aposta na dolarização da economia, oferecendo-se inclusive para servir de colchão de divisas à troca de pesos por dólares. A dolarização total tem, no entanto, um problema estrutural - a convertibilidade do peso para o dólar é puramente imaginária, acusam os analistas, apesar de Cavallo desmentir. Os "argendólares", como lhes chamam, não têm "respaldo" - falta-lhes suporte em dólares reais em contas nos bancos de Nova Iorque ou na Reserva Federal norte-americana.

A margem de manobra é, por isso, muito curta. Mingo dança provavelmente o seu último tango, depois de entre 1991 e 1996 ter granjeado prestígio internacional como o mago que tirou a Argentina da hiperinflação. Na ocasião, chamaram-lhe "superministro". Mesmo assim, Carlos Menem, o presidente da altura, despediu-o depois do serviço feito. De La Rúa está, agora, a ser muito pressionado para repetir a guia de marcha a Domingo Cavallo. Mas a última palavra será, provavelmente, do FMI.

Domingo Cavallo tem o seu nome inscrito na história da Argentina nos últimos 30 anos. Ele foi subscretário do Interior em 1981 e presidente do Banco Central durante 52 dias em 1982, nos tempos da ditadura militar. Depois da democracia, em 1989, foi chamado para Ministro dos Negócios Estrangeiros, tendo restabelecido as relações com Inglaterra (suspensas desde a Guerra das Malvinas). A sua coroa de glória viria com a chamada à pasta da Economia com o presidente Menen e o seu acto de coragem com uma guerra que travaria contra uma das máfias em 1996, o que lhe valeria a saída do governo. Em 1997 criou um partido, o Acción por la Republica. O seu último livro foi intitulado "Pasión por Crear" (editado pela Planeta). Mingo tem um sítio pessoal na Web em www.cavallo.com.ar.

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