O fim da fantasia argentina

Ardina na Crise visita a crise em foco em 2001 no mundo dos chamados países «emergentes»

Jorge Nascimento Rodrigues chegado a Buenos Aires na sexta feira negra
(30 de Novembro de 2001)

Apoio de investigação económica de Silvia Chauvin, editora de www.mujeresdeempresa.com

Versão reduzida publicada no semanário português Expresso de 14/12/2001

Versão em castelhano disponível em Mujeres de Empresa.com

Artigo relacionado: O último tango de El Mingo

Fontes consultadas na imprensa argentina

Plaza de Mayo, onde fica a Casa Rosada (Presidência), por ocasião de uma recordatória dos 30 mil assassinados pela ditadura militar, uma manifestção organizada pelas Mães da Plaza de Mayo O primeiro passeio a pé pelas ruas da bonita capital argentina dá-nos logo três lições de economia de borla que nos fazem decorar três palavras-chave: bancarização, vida cara e classe média.

O estrangeiro fica surpreendido com as filas intermináveis de "porteños" (como são conhecidos os habitantes de Buenos Aires, uma cidade que nasceu das vagas de imigrantes italianos e galegos desembarcados no porto) à porta dos bancos ou das caixas automáticas. Nas duas últimas semanas, fruto das medidas de congelamento parcial dos depósitos bancários, muita gente abriu pela primeira vez na vida a sua conta bancária ou pediu um simples cartão de débito. Subitamente, a maioria viu-se constrangida a deixar de andar com dinheiro vivo no bolso - pois não poderá levantar mais de 250 dólares por semana - e a procurar habituar-se a formas de pagamento de plástico que, nós na Europa, consideramos triviais.

A incredulidade do forasteiro aumenta quando se começa a fazer de cabeça a conversão do custo de vida urbano na capital argentina - um litro de gasolina, um almoço num restaurante de esquina, o parqueamento, uma garrafa de água dos Andes, o aluguer ou a compra de um apartamento, roupa numa loja de bairro, ou mesmo um bilhete de autocarro, numa metrópole onde não há passe social. E, então, descobre-se que numa cidade com um PIB per capita similar ao da região portuguesa de Lisboa e Vale do Tejo, esses preços "essenciais" só seriam, regularmente, acessíveis a bolsas da classe média alta portuguesa. As estatísticas actuais dizem que os preços no consumidor se têm deflaccionado nos últimos seis meses - portanto, imagine-se, que o custo de vida era ainda mais elevado!

Dois tipos de pessimistas

Filas intermináveis para os bancos no dia 3 de Dezembro depois das medidas tomadas por Domingo Cavallo O mistério adensa-se quando percorrendo, de ponta a ponta, as diagonais e quarteirões de Bs.As. (acrónimo da capital) se fica abismado com a densidade de prédios e condomínios com porteiro e "mucamas" (empregadas domésticas), transpirando classe média alta, num país que está à beira da bancarrota, que desde o último trimestre de 1998 está em recessão aberta, e que, desde os anos 20 do século passado, perdeu o seu esplendor de "Europa no Sul do Atlântico".

Mas, apesar do pessimismo nas conversas de rua e do aumento em 300% da corrida aos psicólogos, o argentino da classe média continua a manter a pose elegante, a não querer encarar o declínio histórico em que o país mergulhou nos últimos 80 anos e a alimentar a fantasia de que os últimos dezoito anos de democracia lhe trouxe de volta o estatuto de cidadão de um "país rico" ... que tem um PIB per capita que é 69% do português. Os intelectuais mais lúcidos afirmam que os argentinos têm dificuldade de "assumir a realidade". Os brasileiros diriam - de "cair na real".

FACTOS & NÚMEROS DA ARGENTINA
  • Em recessão desde o último trimestre de 1998 - taxas de crescimento negativas: -3,4% em 1999; -0,5% em 2000; -2,5% em 2001 (estimativa)
  • O PIB per capita argentino é 69% do PIB per capita português e quebrou 5% desde 1998
  • Um país de classe média que deixou de o ser: em 30 anos reduziu o peso deste sector na população de 75% para 45%
  • A dívida pública externa está hoje em 137 mil milhões de dólares e representa (valores de 2000) uma dívida per capita de mais de 3700 dólares (mais de 800 contos), ou seja 50% do PIB per capita
  • Fuga de capitais: 46% do PIB - 130 mil milhões de dólares estão em depósitos no estrangeiro, o equivalente aproximado da dívida externa actual
  • A evasão fiscal ronda os 12% do PIB (em Portugal, no cenário máximo aproxima-se de 7%)
  • O défice público actual é de 10 mil milhões de dólares (3,5% do PNB argentino) e nos últimos 10 anos o gasto público aumentou 2,5 vezes: em 1991, quando começou a convertibilidade, o gasto público anual era de 40 mil milhões de pesos, mas ao longo da década chegou a uma soma de 100 mil milhões
  • A taxa de risco-país disparou desde Outubro deste ano - é 4,5 vezes superior à do Brasil
  • Na última década, a desigualdade social aumentou: os 10% mais ricos aumentaram de 32% para 36% do rendimento nacional e os 10% mais pobres diminuiram de 2% para 1,4%
  • O trabalho clandestino representa 39% dos assalariados sobretudo no comércio, agro-alimentar, construção civil e serviços domésticos
  • A economia informal está estimada em 80 mil milhões de dólares, cerca de 28% do PNB argentino (uma percentagem similar à portuguesa)
  • Apenas 6% do PIB envolve o uso do dinheiro de plástico
  • Há serviços públicos que recebem pagamentos em géneros (cadeiras de escritório, disquetes, discos rígidos, por exemplo) e estabeleceram-se já 400 mercados de troca directa em todo o país
  • Segundo o The Economist Intelligence Unit, a Argentina é o país mais caro para se fazer negócios na América Latina
  • Damo-nos conta, então, que o argentino "médio" se divide entre os pessimistas pragmáticos e "ágeis" - que conseguiram colocar alguma "plata" lá fora, quanto mais não seja no vizinho Uruguai do outro lado do Rio de La Plata - e os pessimistas literalmente encostados à parede a quem só resta a "bicicleta" (ginástica) financeira todos os dias do mês.

    O paradoxo desta economia urbana agrava-se se soubermos que não há crédito individual que possa fazer disparar o consumismo típico das democracias capitalistas e que o crédito ao investimento custa os olhos da cara, sobretudo aos micro e pequenos empresários, com juros oficiais ainda na casa dos 30 a 50% e com os bancos a segurarem a sua rentabilidade com "spreads" na ordem dos 20 pontos ou mais. É, por isso, um milagre ser PME na Argentina e criar emprego sustentadamente - o que implica que 28% da população activa esteja desempregada ou subempregada e que o trabalho "en negro" (ilegal) cubra 39% dos assalariados.

    Renascimento do rentismo

    Aceitam-se patacones por todo o lado A democracia recobrada nos anos 80 não interrompeu o caminho de destruição do tecido empreendedor argentino, em que se envolveram desde os anos 30 do século XX as ditaduras militares e os governos "voluntaristas" populistas, como são designados pelos estudiosos académicos. A curta excepção das políticas de "desarrollismo" do final dos anos 50 não fez escola e a Argentina perdeu a oportunidade de um "take off" do tipo que viveram os "tigres" asiáticos e europeus.

    Contam-se hoje pelos dedos das mãos as excepções de grupos empresariais argentinos com expressão multinacional que apostaram no reinvestimento, que se concentraram no seu negócio e que recusaram o perfume dos dólares ou das pesetas para largarem as empresas nas mãos das multinacionais estrangeiras.

    O país continua a não exportar mais de 11% do seu PIB (comparativamente Portugal exporta 30% e os dois países da América Latina considerados com maior crescimento da competitividade este ano, Chile e México, exportam 30% também) e mesmo os seus "clusters" considerados mais dinâmicos virados para os mercados brasileiro e europeu - que representam 50% do comércio externo - sofrem o facto do peso argentino (uma moeda em morte lenta) estar ligado ao dólar norte-americano (numa relação cambial oficial de 1 para 1), e por isso artificialmente valorizado em relação ao real brasileiro e ao euro europeu desde 1999.

    Comenta-se que falta apostar numa "vocação exportadora" num país que tem bons quadros, reservas de conhecimento, experiência nalguns "clusters" competitivos, cosmopolitanismo, e produtos do território de grande potêncial.

    O movimento de privatizações da década de 90 apenas agravou uma transição para um capitalismo pouco empreendedor dominado por um complexo social em que se juntam os novos latifundistas, uma burguesia "compradora" ligada ao estrangeiro, o enorme aparelho de estado (central, provincial e municipal) responsável por um défice público de 10 mil milhões de dólares (11 mil milhões de euros, 2,2 mil milhões de contos), e a banca, que vivem sobretudo do que os economistas chamam "rendas". O extracto alto deste polvo rentista vive hoje em uns 300 "countries", condomínios fora da capital, e um número crescente de executivos que aí vivem deslocam-se para Buenos Aires de helicóptero.

    O problema desta economia rentista é que não tem qualquer base de competitividade internacional no sentido que lhe deu Michael Porter. O seu palmarés de glória são 130 mil milhões de dólares (cerca de 146 mil milhões de euros, 29,2 mil milhões de contos) em depósitos por parte de empresas e particulares no estrangeiro - ou seja, 46% do PIB do ano passado, e quase tanto como a dívida externa do país. Esta última chegou a um nível que "compromete" mais de 50% do PNB argentino e como que "acorrenta" mais de metade do PIB per capita.

    DIVIDA EXTERNA COMPARADA (Dados de 1999 *)
    País
    "emergente"
       Dívida (em mil
    milhões de dólares)
       Dívida per capita
    (dólares)
       % do PIB
    per capita
       % do PNB
    Brasil    242,7    1427    37    41
    México    172    1780    40    36
    Argentina    154,4    4173    55    54
    Rússia    130,9    895    51    68
    Chile    35,9    2393    52    53
    Fonte: Banco Mundial, www.worldbank.org
    Nota: * Últimos dados disponíveis em todos os 5 países

    Em termos de dívida externa per capita é a mais alta entre os cinco países "emergentes" mais em foco - segundo dados do Banco Mundial, cada argentino já "devia" 4173 dólares (cerca de 4700 euros, mais de 900 contos) em 1999, ou seja 5 vezes mais do que um russo, três vezes mais do que um vizinho brasileiro e 2 vezes mais do que um mexicano (ver quadro).

    O saque espanhol

    Uma nova profissão - os «dogsitters», profissionais passeadores de cães Esse movimento dos anos 90 trouxe ainda outra maleita psicológica - o argentino "médio" está hoje revoltado com o que designa por "saqueo" espanhol. O primeiro impacto foi positivo para a economia argentina - a abertura implicou um afluxo de investimento directo estrangeiro jamais visto. Seis mil milhões de dólares (6,7 mil milhões de euros) só em 1995.

    Os grupos espanhóis chegaram, então, em força - mas alguns são hoje acusados de terem deixado lesões graves no tecido social urbano e rural, nomeadamente nos casos da Repsol que ficou com a YPF (a petrolífera) e da Iberia que controlou as Aerolíneas Argentinas numa primeira fase. Os grupos bancários espanhóis - nomeadamente o BBVA e o Santander Central Hispânico - são hoje apontados como estando à espreita para aproveitar o descalabro da banca argentina e a tradicional desconfiança dos argentinos em relação ao seu sistema bancário nacional.

    As medidas agora tomadas, de urgência, voltam a penalizar principalmente a classe média citadina -profissionais, independentes, microempresários e donos de PME, num país que é 90% urbano. De novo é uma boa parte da classe média que paga a principal factura da quase bancarrota do país, sobretudo aqueles que não têm ordenado pago pelas empresas ou pelo Estado e que vivem directamente do "clima" do mercado.

    Algumas das revoltas das últimas semanas são protagonizadas por protestos inorgânicos - segundo as reportagens, quase espontâneos - de comerciantes e outros segmentos da classe média que vieram para as janelas e para as ruas bater com as panelas, no que foi baptizado de "cacerolazos".

    Os analistas falam inclusive de um processo histórico de "downsizing" deste bloco social que é a base da estabilidade das democracias capitalistas - a Argentina de país típico de classe média, viu esta reduzir-se, em 30 anos, de 75% da população para 45%.

    O perigo autoritário

    Os analistas independentes coincidem todos no mesmo diagnóstico - a fantasia argentina de "país rico" tem de terminar, o país tem de voltar à tradição dos avós imigrantes e à "rentabilização" dos seus activos culturais e intelectuais, apesar das razias provocadas pelas ditaduras no capital humano argentino. O país só sai do fosso se apostar no empreendedorismo e no reforço da sua classe média - escreve-se nos artigos de opinião.

    O problema é que a classe política e sindical faz-lhe orelhas moucas. A competição política desenfreada com vista às presidenciais de 2003 (ou antecipadas) e a agitação sindical que já se iniciou com uma primeira greve geral dia 12 de Dezembro participada conjuntamente pelas três centrais sindicais (CGT oficial, CGT dissidente e Central de Trabajadores Argentinos) apenas lançam mais óleo para a fogueira.

    Os mais pessimistas temem que se venha a gerar o perigo de um golpe não militar, com a ascensão da demagogia autoritária como ocorreu no Peru em 1990 com Alberto Fujimori ou na Venezuela em 1998 com Hugo Chávez. Os mais optimistas esperam que o FMI e os espanhóis voltem a dar a mão à Argentina - quando e em que condições draconianas é a grande interrogação.

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