O apagão planetário no horizonte segundo Richard Duncan

«A electricidade é o elo mais fraco
da Civilização Industrial»

Uma epidemia de cortes de electricidade nas redes eléctricas à escala global poderá tornar-se o pão nosso de cada dia nas décadas de 10 e 20 deste século, terminando num queda abrupta do uso de energia per capita, que regressaria aos níveis de 1930.
A divulgação em exclusivo de um "paper" polémico publicado no jornal científico Population and Environment.

Jorge Nascimento Rodrigues divulga o mais recente "paper" de Richard Duncan, presidente do Institue on Energy and Man (Seattle, EUA)

Site de Richard Duncan | Artigo anterior de Duncan na janelanaweb
Guerras de Recursos - o livro polémico | Artigos do Ardina na Crise
Artigo sobre os 50 anos da gestão no século XX com referência
ao papel do casal Meadows e de Jay Forrester

A electricidade é o elo mais fraco do capitalismo industrial e da sua "extensão" digital.

A própria revolução tecnológica associada à Terceira Vaga desde os anos 70 e à Nova Economia mais recente apenas acelerarou a dependência de todo o sistema económico e modo de vida em relação à electricidade.

E será por este calcanhar de Aquiles que o sistema sofrerá um dos abalos estruturais mais profundos quando se generalizar uma "epidemia" de "apagões" à escala do Planeta.

O que hoje está localizado - em casos como os da Califórnia, Texas e Nevada, nos Estados Unidos, e do Brasil - poderá generalizar-se em meados da próxima década.

Este cenário, aparentemente apocalíptico, foi apresentado agora num artigo científico publicado na revista Population and Environment (vol.22, nº5, 2001, intitulado «World Energy Production, Population and the Road to the Olduvai Gorge») por Richard Duncan, presidente do Institute on Energy and Man, sediado em Seattle, na costa do Pacífico norte-americana.

O cenário atraiu polémica desde que foi apresentado nalgumas conferências científicas no ano passado, meses antes dos primeiros "blackouts" serem decretados na Califórnia.

Tiro no coração

A tese central de Duncan é que o coração do estilo de vida contemporâneo centra-se no que ele denomina de "3 C" - comunicações, computação e controlo, e que tudo isso depende, em última análise, do simples interruptor de luz na parede!

«Não há substituto para a energia eléctrica no quadro desta Civilização Industrial e consumista. Por isso, os apagões serão uma bala dirigida directamente ao coração deste sistema», explica-nos o autor numa linguagem mais "popular" do que os cálculos e gráficos do artigo.

Estes 3 C - através dos telemóveis, telefones, agentes pessoais digitais, Internet, servidores, PC, redes de comunicação, antenas, receptores, satélites, tráfego aéreo, controlo de instalações, GPS, comunicações militares, etc. - consomem cada vez mais electricidade e, por vezes, o crescimento deste consumo é superior ao próprio crescimento do produto interno bruto nalguns países (como é o caso de Portugal nos últimos anos).

Para satisfazer estes três glutões, actualmente 42% das fontes primárias de energia é usado para gerar e distribuir electricidade no mundo, ainda por cima com um nível de eficiência baixo (de 33%, segundo Duncan - 67% da energia primária seria pura e simplesmente desperdiçada!).

Guerras de recursos

«O problema é que estas fontes de energia primárias estão à beira de um ataque de nervos», ironiza Duncan. Algumas estão a atingir o seu pico histórico de produção mundial, como no caso do petróleo, previsto para 2006. Outras são ambientalmente trágicas nos seus impactes, como o carvão e o nuclear, e outras, ainda, poderão provocar guerras civis e guerras entre países pelo controlo desses recursos, como nos casos do petróleo, gás natural e água.

Segundo os cenários desenvolvidos por Duncan é presumível que a produção mundial de petróleo esteja em 2030 ao nível da de 1970 e que este mercado esteja totalmente na mão do cartel da OPEP a partir de 2008 (ler artigo).

O que esta escassez e monopólio irá gerar é, por ora, imprevisível, mas uma amostra do tipo de guerras que poderão eclodir encontra um exemplo pioneiro na Guerra do Golfo de 1991. «Muita gente já esqueceu a história não muito longínqua - recorde-se que o Japão ocupou os campos de petróleo na Indonésia em 1940 por fome total de crude», recorda Duncan, que acrescenta, com um sorriso amarelo: «Eu estava a trabalhar na Arábia Saudita quando a Guerra do Golfo rebentou. Vi alguns 'Scuds' e 'Patriots' passarem-me por cima da cabeça e entendi debaixo de fogo o significado do controlo do petróleo».

É de esperar, também, o despontar de instabilidade, conflitos internos e guerras de controlo pelas regiões de extracção e produção do gás natural, particularmente na região do Mar Cáspio ou na África do Norte.

Limites ao crescimento

No plano teórico, Duncan socorre-se do conceito de "feedback" negativo implicando um reequilibro dramático do sistema, defendido pelo casal Dennis e Donella Meadows (falecida recentemente com apenas 60 anos) na célebre obra Limites ao Crescimento de 1972, e da dinâmica de sistemas complexos criada por Jay Forrester em 1971 no seu livro Dinâmica Mundial.

As obras dos Meadows e de Forrester foram criticadas pelo pessimismo e insensibilidade ao desenrolar da Terceira Vaga, que teria "ultrapassado" esses limites. Mas Duncan replica que isso foi uma ilusão: «De cada vez que um dado limite ao crescimento é removido, um novo e mais difícil é imediatamente encontrado. E para esta dinâmica não há solução», comenta o nosso interlocutor que aconselha a releitura daqueles autores dos anos 70.

O que se visualiza nalguns cenários é a conjugação de vários limites nos próximos 30 anos. «Trata-se de uma matriz de causas que se associam e se influenciam», adverte-nos Duncan. A sobrepopulação em certas regiões que defrontarão escassez de recursos, os problemas ambientais graves, como a erosão dos solos, o avanço da desertificação, a subida do nível dos mares, as guerras de recursos e o próprio domínio dos suportes digitais sobre os analógicos (ponto de viragem esperado para 2006) requerendo mais energia, vão formar um "cocktail" explosivo.

Resultado da evolução deste cenário, o uso de energia per capita em 2030 cairá para valores de 1930, de um século antes!

Estaremos todos em 2030 à luz das velas trabalhando no portátil gastando os últimos cartuchos da bateria? As implicações na organização do trabalho e da produção, na noite e no dia, serão inimagináveis.

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