O elo mais fraco do alargamento

Portugal será o país da União Europeia mais afectado pelo alargamento de Maio de 2004 aos países do Leste, bálticos e às duas ilhas mediterrâneas. Um novo estudo académico realizado à escala europeia, em que a Universidade de Évora participou, revela que as trocas comerciais e o investimento directo estrangeiro serão os pontos críticos para o nosso país.

Jorge Nascimento Rodrigues, Junho 2003

Portugal é o único Estado-membro da União Europeia que terá um saldo negativo simultâneo no crescimento do comércio intra-comunitário e dos fluxos de investimento directo estrangeiro (IDE) depois da vaga de adesão em Maio de 2004 de cinco países do leste europeu, dos três países bálticos e de duas ilhas mediterrâneas. Paradoxalmente, o elo mais fraco deste alargamento do próximo ano (e da adesão ao euro no período de 2006 a 2010) está situado no ponto mais atlântico e mais distanciado geográfica e culturalmente desta deriva da U.E. na direcção da Eurásia. A janela de oportunidade para inverter esta tendência portuguesa estende-se pelos próximos cinco a sete anos.

«No estudo de simulação que fizemos nenhum outro Estado-membro actual apresentou uma situação tão desfavorável. Por isso, esta vaga de alargamento torna a necessidade do ajustamento estrutural em Portugal ainda mais premente», referiu ao Expresso José Caetano, professor do Departamento de Economia da Universidade de Évora, que participou no estudo europeu "Ezoneplus". O estudo analisou os efeitos do alargamento a Leste da zona euro e os resultados foram, agora, divulgados.

Nenhum outro Estado-membro da EU actual apresentou uma situação tão desfavorável. Por isso, esta vaga de alargamento torna a necessidade do ajustamento estrutural em Portugal ainda mais premente.

Mesmo a Espanha - que já avaliou estes impactos negativos na ordem dos 0,2% do PIB em termos de comércio intra-comunitário no médio prazo e de 1,7% do PIB até 2013 em termos de perca de fluxos de IDE - «tem condições de compensar os efeitos negativos através das oportunidades de exportação e de investimento nos novos países aderentes que está em situação de aproveitar», sublinha aquele professor. José Caetano liderou uma equipa portuguesa de cinco investigadores e de três assistentes que trabalharam as áreas da criação ou desvio de comércio e de fluxos de IDE por efeito deste novo alargamento. A Grécia surge, no estudo, com impacto "neutro".

Os valores para Portugal serão mais gravosos que os de Espanha, mas os resultados do estudo que está a ser feito pela equipa do ex-ministro Augusto Mateus só serão divulgados em Outubro deste ano.

Os valores para Portugal serão mais gravosos que os de Espanha, mas os resultados do estudo que está a ser feito pela equipa do ex-ministro Augusto Mateus só serão divulgados em Outubro deste ano.

Segundo o "Ezoneplus", os principais beneficiários na criação de comércio induzido pelo alargamento a leste serão a Alemanha (que tem 25% das exportações e 33% das importações naquele espaço), a Itália, a Áustria e a França, na U.E., e a vizinha Rússia (por via da exportação) que poderá utilizar os novos aderentes como "porta de entrada". No campo do IDE, o ponto de viragem para a "corrida" ao Leste deu-se em 1995 e as empresas da União Europeia detém hoje 70% do stock de capital estrangeiro investido nos novos países aderentes, com destaque para a Alemanha (19%) e a Holanda (14%). Os principais receptores desta vaga de investimento dos últimos oito anos foram a República Checa, a Hungria e a Polónia, que detém 2/3 daquele stock.

Do desajuste na oferta...

O primeiro problema estrutural português é o seu padrão de especialização internacional. Diz José Caetano: «O nosso país revela, por um lado, pouca capacidade para aproveitar a abertura dos novos mercados dos países aderentes, e, por outro, corre o risco de sofrer séria concorrência no acesso aos mercados comunitários, em especial a partir do momento em que os mecanismos de preferência comunitária forem extensivos aos novos aderentes».

Ou seja, há um duplo problema: por um lado, há um desajuste entre o nosso perfil de exportações e o tipo de importações que os novos aderentes precisam; por outro, os novos aderentes vão desencadear uma concorrência agressiva no mercado comunitário em segmentos de produtos e serviços em que tradicionalmente damos cartas.

... ao levantar da tenda

«Particularmente vulnerável» é, também, a situação no campo dos fluxos de IDE. Segundo o estudo, haverá uma dinâmica de deslocalização que irá afectar Portugal, e de que já haveriam «indícios mais do que evidentes», segundo o estudo. Contudo, esse efeito «não será global», acautela José Caetano. «Pode assumir proporções preocupantes em alguns sectores, como têxtil, vestuário e calçado, com impactos regionais importantes», refere o estudo.

Uma lógica que começa a ser observada nos movimentos de multinacionais de todas as dimensões que já olham os novos aderentes como plataformas de exportação para toda a União. A transparência dos custos de mão de obra (actualmente12% da média europeia) dos novos aderentes com a progressiva adaptação à zona euro será o argumento decisivo.

A nossa mais-valia

Contudo, guardamos um trunfo na manga, diz o estudo. A imagem de Portugal nos novos países aderentes é a de um pequeno país com sucesso na adesão à Comunidade Europeia desde 1986 e ao euro mais recentemente. «Paradoxalmente, somos mais caso de sucesso naqueles países do que em alguns estratos da sociedade portuguesa», ironiza José Caetano. Há, por isso, sobretudo por parte de países com uma dimensão mais pequena ou similar à nossa em termos populacionais, «um elevado apreço e mesmo entusiasmo» pela nossa transição.

O que tem, naturalmente, gerado oportunidades. São vários os técnicos portugueses que, fruto da experiência nas fases de negociação na altura da adesão e de exploração de oportunidades durante o período dos fundos, têm desenvolvido trabalho de consultoria com êxito. Áreas como a Sociedade da Informação, o Desenvolvimento Regional e a questão agrícola são algumas em que a procura de especialistas portugueses se faz sentir.

O ESTUDO
O estudo "Ezoneplus", de seu nome completo The Eastward Enlargement of the Eurozone, foi iniciado em Julho de 2001 e as suas conclusões foram apresentadas em Maio deste ano (2003) em Bruxelas. O relatório abarcou quatro áreas de análise - os mercados de capitais, o trabalho (está prevista a emigração de um milhão de pessoas dos novos países aderentes sobretudo para a Alemanha, Áustria e Itália até 2010), o comércio externo e o investimento directo estrangeiro.
O projecto foi liderado pelo Jean Monnet Centre of Excellence da Universidade Livre de Berlim, e nele participaram o Departamento de Economia da Universidade de Évora, o Instituto de Investigação Económica (VATT) da Finlândia, o Instituto de Investigação Económica (IER) da Eslovénia, a Universidade de Tartu, da Estónia, o Departamento de Ciências Económicas da Universidade de Bolonha, na Itália, e o Instituto de Estudos Internacionais da Escola de Negócios de Varsóvia, na Polónia.
A equipa portuguesa está, agora, a trabalhar em sugestões de políticas com o objectivo de identificar aspectos relevantes passíveis de serem alvo de intervenção por parte dos decisores públicos.
Apesar da Espanha não ter participado neste estudo europeu, um trabalho similar sobre os impactos do alargamento no nosso vizinho foi realizado por uma equipa liderada por Carmela Martín e publicado pela La Caixa, grupo bancário catalão.

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