Cinco olhares sobre a Economia Mundial

Ardina na Crise dá-lhe cinco pistas sobre a conjuntura e as tendências
em curso

Jorge Nascimento Rodrigues, Março e Abril de 2003


1ª Pista: Recessão estrutural depois de crescimento com deflacção, o normal na história económica do capitalismo

Para muitos analistas económicos, a comparação do período actual pós-boom da Nova Economia com os anos 30 e 40 do século XX é cada vez mais tentadora. Estes observadores da história económica afirmam que, depois, de um período de crescimento deflaccionário - que se estendeu, com alguns altos e baixos, de 1982 a Março de 2001 nos Estados Unidos, mês decretado oficialmente como "entrada" em recessão pelo National Bureau of Economic Research -, segue-se, ciclicamente, um período de depressão prolongada.

O paralelo histórico no século XX ocorreu depois de um curto período de crescimento deflaccionário de 1921 a 1929, a que se seguiu uma das maiores depressões da história, que se arrastou, com altos e baixos até aos anos 50, quando a revolução do "transístor" conseguiu servir de alavanca a um "boom" temperado por inflação que decorreria até às famosas crises petrolíferas dos anos 70.

Registe-se que esse período de depressão dos anos 30 e 40 do século passado se pontuou, também, pela emergência de novas ambições neo-imperiais na Europa e na Ásia (o eixo nazi-nipónico), por uma revolução na estratégia e na doutrina militar, por uma guerra mundial (que durou seis anos devastadores), por um recuo substancial na onda de globalização e de mobilidade do capital internacional e por mudanças radicais sucessivas em curto espaço de tempo do mapa geo-político, sobretudo na Europa e na Ásia.

Se passarmos de uma análise convencional baseada na evolução do PIB (com o estudo dos "booms" económicos e das recessões técnicas com mais de dois trimestres de crescimento negativo) ou dos mercados financeiros (marcando os "crashes" e os períodos de "bolha") para um olhar da história económica baseado em ciclos mais longos, como o fez o analista Mike Alexander, a nossa percepção da evolução da economia mundial torna-se mais rica.

CICLOS NO SECULO XX
1896-1912: Forte Crescimento económico com inflação (PIB cresceu 4,6%)
1912-1921: Estagflação com quebra do PIB (-0,3%)
1921-1929: Curto período de crescimento forte com deflação (PIB aumentou 5,7%)
1929-1954: Longo período de depressão (depois da recessão iniciada em 1929; no entanto, crescimento do PIB de 2%)
1954-1973: 20 anos de crescimento com inflação (PIB aumentou 4%)
1973-1982: Estagflação (crescimento do PIB em 2,3%)
1982-2002: 20 anos de crescimento com deflação (crescimento do PIB de 3,5%)

Alexander analisou os ciclos longos assentes na evolução do índice de preços da produção relativizado pelo estímulo monetário, e verificou um comportamento "repetitivo" - cada ciclo longo passou desde meados do século XIX por quatro fases distintas: crescimento com inflação, estagflação, crescimento com deflação, depressão, e de novo crescimento com inflação.

Fonte: The Kondratieff Economic Cycle, Mike Aleksander. Ler na Janelanaweb um artigo antecipatório escrito em Setembro de 2001: A década (2001-2010) de todos os riscos - Recordando os ciclos de Kondratiev para perceber o que se passa diante dos nossos olhos.

2ª Pista: Petróleo pode provocar colapso do consumo

Um movimento altista continuado do preço nominal do barril de crude num patamar entre os 35 e os 40 dólares (nominais) poderá provocar em 2003 um colapso do consumo ou mesmo uma situação mais grave de crise do consumo no mundo desenvolvido. A situação é particularmente preocupante na Europa, onde há diversos países com uma situação muito frágil em termos de endividamento das famílias e de taxa de poupança (ver quadros).

Quadro I
Nível de Poupança e de endividamento das famílias face ao Rendimento Disponível
(Países com situação mais crítica na OCDE)
Valores em %
PaísesDívidaPoupança
Dinamarca1865,2
Holanda14311,1
Noruega1364,0
Suíça1309,3
Austrália1270,9
Japão1238,2
Reino Unido1235,1
Suécia1176,3
Alemanha11310,4
Nova Zelândia1130,2
Portugal1069,6
Fonte: Goldman Sachs, Global Economic Weekly, 5/02/03

Quadro II
Índice de maior vulnerabilidade
(Index da Goldman Sachs)
PaísPosição de maior vulnerabilidade
Austrália56
Reino Unido54
Japão52
Espanha52
Noruega50
EUA50
Dinamarca48
Coreia(Sul)46
Malásia46
Polónia46
Portugal46
Brasil42
Canadá42
Taiwan42
Hong Kong40
Fonte: Goldman Sachs, GEW, 12/02/03

Para os analistas da Goldman Sachs, o consumo é, agora, o ponto fraco do sistema económico do mundo desenvolvido, sendo de esperar "um claro ajustamento" no comportamento dos agregados familiares este ano.

A consultora nova-iorquina chama a atenção para a "vulnerabilidade no consumo" - um indicador que a Goldman Sachs criou, agora, tendo em conta variáveis como a dívida das famílias, o nível de poupança doméstica e o rendimento disponível. No relatório que produziu sobre o novo índice ("Introducing the Consumer Vulnerability Index", 12/02/03), curiosamente entre os sete países mais vulneráveis encontram-se os promotores da nova geo-política - Reino Unido, Espanha e Estados Unidos, tal como os aliados Austrália, Japão e Dinamarca.

O choque psicológico já se iniciara em virtude da instabilidade geo-política desde finais do ano passado - o que falta é sentir o efeito prático nos gastos das famílias, alega o relatório da consultora publicado em Fevereiro de 2003. O comportamento consumista ainda não havia dado sinais de abrandamento claro, apesar de dois anos e meio de desgaste da riqueza das famílias - perca de vários biliões de dólares com a quebra das bolsas desde Abril de 2000 e impactos iniciais de uma recessão que nos Estados Unidos se iniciou em Março de 2001.

O padrão de consumo dos países do grupo do G7 encontrava-se, em 2002, ainda 1,5 pontos percentuais acima da tendência de longo prazo do consumo em percentagem no PIB. Esta situação é insustentável, alega o estudo da consultora americana. "A questão em 2003 é como vai dar-se o ajustamento - não se ocorrerá", escreve-se preto no branco.

O "gatilho" do barril

O "gatilho" deste ajustamento poderá ser o movimento altista do preço nominal do barril de crude que se tem mantido acima dos 30 dólares desde o início de 2003. Só nos Estados Unidos, o preço do barril de crude aumentou em 33% nos últimos três meses, tendo fechado o mês de Fevereiro nos 36 dólares, valores nominais jamais atingidos nos últimos 15 anos. Na Europa, o barril de petróleo Brent abriu o mês de Março a 33 dólares. Os futuros de crude para Abril, segundo a Bloomberg, situam-se nos 37 dólares nos Estados Unidos e nos 32 dólares para o Brent europeu.

O petróleo foi já responsável, nos últimos 30 anos, por colapsos do consumo (quebra absoluta anual de 2%) e mesmo por crises de consumo (quebra absoluta anual de 4%) após os choques petrolíferos de 1973 (embargo de Outubro) e de 1979, situações que se verificaram em 1974-75 em países como o Reino Unido e os Estados Unidos, e entre 1979 e 1982 em diversos países desenvolvidos na América do Norte, Europa e Ásia. Neste último período, além do petróleo, o disparo das taxas de juro agravou a situação das famílias. Os sete casos mais graves, de crise no consumo, atingiram o Reino Unido, Holanda, Noruega, Finlândia, Itália, Suíça e Coreia do Sul, em diferentes décadas nos últimos 30 anos. Uma vez mais a Europa e uma zona da Ásia surgem como regiões de risco no mundo desenvolvido.

Apesar do factor alta das taxas de juro não actuar agora - em muitos casos estas taxas estão negativas em termos reais -, a situação é mais frágil. As taxas de poupança nalguns países desenvolvidos estão a níveis muito baixos em termos históricos e o endividamento é elevado. Esta situação de risco é particularmente visível na Europa. Portugal encontra-se entre os 11 países com um nível de dívida das famílias mais elevado, mas o seu nível de poupança não está nos seis mais baixos (ver quadro). O nosso país nunca sofreu uma crise do consumo nos últimos 30 anos, mas sentiu um colapso do consumo em 1988 e em 1993.

Saliente-se, no entanto, que o preço real actual do petróleo está, ainda, abaixo dos preços reais aquando do mini-choque da Guerra do Golfo em 1990/91 e longe dos preços reais do crude em 1981, quando atingiu os 50 dólares por barril (correspondentes, então, a 35 dólares a preço nominal). O que significa que há, ainda, alguma margem de manobra, apesar do efeito de contágio regional e global ser hoje incomparavelmente superior.

3ª Pista: Falta "locomotiva" mundial

Apesar do "boom" associado à Nova Economia entre 1995 e 2001, tem faltado à economia mundial uma clara "locomotiva" desde os anos 90, o que poderá denotar uma diferença estrutural em relação a décadas anteriores. Por outro lado, as estimativas de crescimento para 2003 e 2004 - que, em larga medida, ainda não têm em conta os efeitos dos eventos geo-políticos previstos ou imprevistos que ocorrerão durante estes dois anos - revelam a continuação da quase estagnação no Japão, a dificuldade de descolagem da Europa e uma retoma lenta nos Estados Unidos (ver quadros).

A esperança no crescimento da economia chinesa, alvitrada como "salvação" por alguns analistas, não é susceptível de transformar os 7 a 8% de crescimento anual do PIB chinês nos próximos 3 a 5 anos em "locomotiva" planetária - a China representa, apenas, 4% do PIB mundial. O impacto da emergência chinesa será, ainda, limitado, ainda que a provável "adição", a curto ou médio prazo, da China ao G7 ("clube" dos grandes onde já participa a Rússia como oitavo passageiro), possa lançar uma vaga de euforia em relação às oportunidades de crescimento naquele país.

Diferença estrutural

Muitos analistas têm referido o carácter "conjuntural" da actual situação de recessão e depressão, sem ter em conta o novo dado do problema económico internacional - dito de um modo simplista, sem "locomotiva" o combóio não acelera.

Enquanto nos anos 60 e 70, o mundo foi "puxado" pelo Japão - com taxas de crescimento médio anual na ordem dos 10,2 e 4,8% respectivamente -, nos anos 80 o crescimento foi "salvo" pela euforia do projecto europeu - que apresentou a melhor taxa de crescimento (3,9% contra 3% dos EUA e 2,2 do Japão). Contudo, durante os anos 90, as taxas de crescimento nos três protagonistas centrais têm estado claramente abaixo das médias das décadas anteriores e marcadas por uma desaceleração profunda no Japão e um abrandamento significativo na Europa.

Quadro I
As "locomotivas" mundiais nos últimos 40 anos
Média do crescimento do PIB por décadas (%)
"Locomotivas"Décadas
 19601970198019901992/2002
EUA4,13,33,03,13,2
Europa4,83,43,9 2,22,2
Japão10,24,82,21,51,1
Fonte: Goldman Sachs, Global Economics Weekly, 15/01/03

Quadro II
Ausência de "locomotiva" a curto prazo
Crescimento do PIB em relação ao ano anterior (%)
"Locomotivas"200120022003 (e)2004 (e)
EUA0,32,42,03,0
Europa1,40,70,92,7
Japão0,3-0,20,00,3
Fonte: GS, GEW, 12/02/03
Nota: (e) estimativas da GS

A curto prazo, os anos de 2003 e 2004 serão marcados pelo desenlace de um conjunto de incógnitas decorrentes da nova geo-política americana e dos seus aliados atlânticos, da reacção internacional e regional de outras grandes e médias potências, do comportamento do ouro negro, da vulnerabilidade das estruturas de consumo em países desenvolvidos e do próprio efeito da dinâmica de guerra no orçamento norte-americano. A consultora Goldman Sachs chama de "complicações" a essas incógnitas e refere alguns aspectos que têm sido esquecidos no actual debate sobre a conjuntura económica mundial.

Complicações esquecidas

A excessiva focalização no desenrolar da operação no Iraque tem ocultado o facto de que a principal "complicação" geo-estratégica será provavelmente, a curto prazo, a evolução da crise na Península coreana.

A médio prazo, o Golfo Pérsico e toda a região do Médio Oriente e do Mar Cáspio pode tornar-se num braseiro de disputa hegemónica directa entre grandes potências. Para Michael Klare, especialista em geo-economia, a estratégia norte-americana vai acelerar o envolvimento estratégico da Rússia e da China na região.

O factor "geo-político" (neologismo recente nos relatórios dos consultores de investimento) que afecta as decisões dos investidores não se resume, por isso, ao mais rápido ou mais demorado processo militar no Iraque, sublinha a Goldman Sachs desde meados de Fevereiro.

O terceiro maior "choque" petrolífero nos últimos 40 anos, avaliando o seu impacto acumulado na oferta de barris em termos de um semestre, foi a inesperada greve da Venezuela

Por outro lado, a crise petrolífera em curso não depende essencialmente dos poços do Iraque em "boas" ou "más" mãos.

Por mais paradoxal que possa parecer ao leitor, o terceiro maior "choque" petrolífero nos últimos 40 anos, avaliando o seu impacto acumulado na oferta de barris em termos de um semestre, foi a inesperada crise da Venezuela - que se posicionou como a que mais afectou o comportamento da oferta mundial de crude depois da 3ª Guerra Israelo-Árabe ("Guerra dos Seis Dias" de 1967) e da Guerra Irão-Iraque (1980), ainda segundo a Goldman Sachs, no seu relatório recente "Iraque e os Riscos Geo-políticos" (ver quadro). O seu impacto até à data já foi superior ao ocorrido com a Guerra do Golfo (1990/1991) ou a Revolução Iraniana contra o Xá (1978).

Impacto liquido cumulativo depois de seis meses sobre os choques petrolíferos históricos dos últimos 40 anos
  • Estimativa para o acumulado de greve da Venzuela e Guerra do Iraque (2003): mais de 600 milhões de barris que poderão ser perdidos
  • Guerra do YonKippur e Embargo da OPEP (1973): 400 milhões de barris perdidos
  • Guerra Irão-Iraque (1980): 350 milhões de barris perdidos
  • Greve na Venezuela (2003): 250 milhões de barris perdidos
  • Guerra do Golfo (1990/91): pouco mais de 100 milhões de barris perdidos
  • Revolução no Irão contra o Xá (1978): pouco mais de 100 milhões de barris perdidos

  • Fonte: GS, GEW, 12/02/03

    E o relatório mencionado deixa um alerta - o efeito cumulativo da crise venezuelana com a guerra do Iraque poderá ter um efeito devastador durante 2003: 6 vezes mais doloroso do que o da Guerra do Golfo e uma vez e meia mais profundo do que o da Guerra Israelo-Árabe.

    A pressão sobre o orçamento norte-americano é outra variável que aconselha uma monitorização regular, dado que cada mês de guerra no Iraque está avaliado num custo de 9 mil milhões de dólares. A questão pertinente prende-se com o seu financiamento, que, segundo diversos especialistas, exigirá a captação de capitais de todo o mundo para obrigações do Tesouro norte-americano, que só poderão ser atraentes se as suas taxas de juro forem aliciantes. O que implicará a reversão da actual tendência defendida pela Reserva Federal de sucessivas baixas da taxa de juro.

    4ª Pista: Petróleo é poder

    O crude deixou definitivamente de ser uma mercadoria - uma "commodity", na designação técnica dos mercados. Passou a ser um activo geo-estratégico, cujo objectivo central para as principais potências mundiais é "capturar e controlar". A caminhada histórica desta mudança de natureza levou trinta anos, desde que o cartel de uma boa parte dos exportadores do petróleo, então recém-organizado na OPEP, decretou o embargo do petróleo em Outubro de 1973. Foi o acto pioneiro do petróleo como activo geo-político. Contudo, só, recentemente, com a doutrina da Administração Bush o passo decisivo foi dado.

    Strategic Energy Initiative - do Center for Strategic and International Studies - Relatório «The Geopolitics of Energy into the 21st Century: The Report of the CSIS Strategic Energy Initiative»

    O conceito do "petróleo como poder" foi assim formulado há dois anos por Robert Ebel, um ex-oficial da CIA e responsável no Center for Strategic & International Studies (CSIS) norte-americano por uma Iniciativa Estratégica sobre Energia: «O petróleo alimenta o poder militar, os cofres nacionais e a política internacional. Já não é mais uma mercadoria para ser comprada e vendida nos limites do equilíbrio tradicional dos mercados de energia. Transformou-se num determinante do poder internacional».

    A doutrina Kissinger

    Esta visão norte-americana sobre o petróleo começou a ser trabalhada nos anos 70, depois do primeiro choque petrolífero. Atribui-se ao secretário de Estado da época, Henry Kissinger, a paternidade desta doutrina então emergente. Em 1975 foi publicado na revista norte-americana Harper's um artigo assinado com pseudónimo, por um tal Miles Ignotus (soldado desconhecido, em latim), em que se argumentava explicitamente a necessidade estratégica de "capturar o petróleo árabe" (título do artigo no original: "Seizing the Arab Oil"). No entanto, as prioridades geo-estratégicas dos EUA eram, então, outras como é sabido - a disputa hegemónica com a União Soviética ocupava todo o espaço operacional.

    Artigo de referência sobre a doutrina Kissinger

    A semente foi sendo trabalhada em Administrações sucessivas quer por democratas como por republicanos. O Presidente Carter declarou formalmente o Golfo como "zona de influência dos EUA" e criou a "Força de Intervenção Rápida" (FIR). Senadores democratas como Henry Jackson, de Washington, e Daniel Patrick Moynihan, de Nova Iorque, eram tidos como defensores da ideia de "captura e controlo". O Presidente Reagan transformou a FIR no Comando Central, uma nova autoridade militar com responsabilidade sobre a região do Golfo até ao Afeganistão. Em 1987, no pico da guerra entre o Irão e o Iraque, a Marinha dos EUA criou uma "task force" conjunta para proteger os petroleiros, fazendo disparar a presença militar americana naquelas águas.

    A própria guerra entre o Irão e o Iraque nos anos 80 do século passado foi o primeiro sinal da turbulência geo-política que começava a afectar o ouro negro do Médio Oriente. Bagdade iniciara uma estratégia de domínio na região, tentando domesticar o Irão, e mais tarde anexando o Kuwait. Os movimentos resultaram em clamorosos erros estratégicos e em derrotas. Mas a noção de que o petróleo era mais do que combustível sedimentou-se no xadrez geo-estratégico e, depois da Guerra do Golfo, a presença militar americana na região reforçou-se significativamente. Contudo, uma linha de "fronteira" não havia sido ultrapassada pelos americanos e a doutrina Kissinger nunca foi concretizada.

    Há um certo cheiro a poder no petróleo. Sobretudo se se puder controlar as suas reservas, o que é, de facto, a questão central.

    No entanto, desde final dos anos 70 que uma corrente de estrategos norte-americanos se agrupou em torno da "actualização" da doutrina de Kissinger, em que se contam Robert W. Tucker (professor universitário), Richard Perle (responsável até há pouco tempo no Pentágono pelo Comité de Políticas de Defesa), Paul Wolfowitz (actual secretário-adjunto da Defesa), Donald Rumsfeld (actual secretário da Defesa), Dick Cheney (actual vice-presidente de Bush), Robert Kagan, James Woolsey (ex-director da CIA), William Kristol e o editor Martin Peretza (do "New Republic").

    Alguns deste nomes estão hoje em destaque na Administração Bush - o que os une, desde há seis anos, é um denominado "Projecto para o Novo Século Americano" (PNAC - Project for a New American Century), em que o novo conceito do petróleo como poder é um dos elementos fundadores. O PNAC patrocinou em Fevereiro de 2003, um mês antes do início dos bombardeamentos a Bagdade, a publicação de um livro revelador, intitulado The War over Iraq (compra do livro), escrito precisamente por Kagan e Kristol.

    Robert Ebel, por seu lado, trabalhou também no Departamento do Interior e na Agência Federal de Energia e é o principal autor de um relatório intitulado «A Geo-política da Energia no século XXI», elaborado no CSIS, onde orientou um grupo que discutiu o problema, em que se encontravam membros do Congresso dos Estados Unidos e responsáveis de algumas multinacionais do petróleo e do Instituto do Petróleo Americano. «Há um certo cheiro a poder no petróleo. Sobretudo se se puder controlar as suas reservas, o que é, de facto, a questão central. O nó do problema não é a produção corrente. Dêem-me o controlo das reservas, e eu darei cartas», explicou Ebel num debate público com outro especialista, Daniel Yergin, no programa norte-americano «Think Tank», animado semanalmente por Ben Wattenberg, na PBS.

    Cerco à China

    A visão de longo prazo sobre a economia do petróleo deveria passar a ser "incorporada nas decisões de curto prazo da política de negócios estrangeiros", reclamava-se, ainda antes da eleição de George W. Bush, no referido relatório dirigido por Ebel. Criticando a dispersão da Administração Clinton por missões de manutenção da paz, exigia-se virar a "prioridade estratégica" para esta questão do crude.

    O documento chamava à atenção para o facto do Golfo Pérsico ser o fornecedor "central" dos mercados mundiais e que irá expandir a sua produção em cerca de 80% até 2020. Referia-se, também, que nessa mesma data, provavelmente 50% dos produtores e exportadores serão "países com um alto risco de instabilidade interna".

    «Controlar o petróleo é um problema de poder, mais do que de combustíveis. O controlo sobre o Golfo Pérsico traduzir-se-á no cerco e controlo sobre a Europa, o Japão e a China, importadores líquidos», refere, por seu lado, Michael Klare, autor do polémico Guerras pelos Recursos, a que já nos referimos aquando do lançamento do livro. No relatório dirigido por Ebel cita-se com particular destaque o caso da China que juntamente com a Ásia deverá "absorver" ¾ das exportações do Golfo em 2015. Em virtude desta dependência estratégica, o relatório alvitra que «a China poderá construir laços militares com os exportadores do Golfo Pérsico», o que se poderá transformar numa dor-de-cabeça para os EUA. Por isso, haveria que agir antecipadamente.

    5ª Pista: As contas da guerra

    As imagens da entrada no centro de Bagdade adiaram a polémica nos Estados Unidos sobre os custos da Guerra no Iraque, uma contabilidade que havia começado muitos meses antes de ter sido lançada a primeira bomba sobre a capital iraquiana. Os custos directos estimados não representarão mais de 0,8% a 2% do PIB anual americano, o que colocaria esta guerra num patamar um pouco mais acima do esforço feito com a Guerra do Golfo.

    Os cálculos variam entre os 80 mil milhões (bilhões, na designação anglo-saxónica e brasileira) repartidos pelos anos fiscais de 2003 e 2004, de acordo com a consultora Goldman Sachs (vide Global Economics Weekly, de 19/03/03), até uma faixa de 100 a 200 mil milhões (bilhões), segundo as estimativas divulgadas no The Wall Street Journal em Setembro de 2002 por Larry Lindsey, um economista então ligado à Casa Branca. É uma verba muito distante dos custos dos envolvimentos norte-americanos nos anos 50 a 70 na Coreia e no Vietname (ver quadro com custos comparados a preços de 2002).

    CUSTO DIRECTOS DAS GUERRAS
    (a preços de 2002)
    1ª Guerra Mundial (1917-1918) - 190, 6 mil milhões (mm, bilhões) de dólares - 24% do PIB americano
    2ª Guerra Mundial (1941, depois de Pearl Harbor, a 1945) - 2.896,3 mm - 130%
    Plano Marshall (quatro anos) - 450 mm
    Guerra da Coreia (1950-53) - 335,9 mm - 15%
    Guerra do Vietname (1964-1972) - 494,3 mm - 12%
    Guerra do Golfo (1990-1991) - 76,1 mm- 1%
    Guerra do Afeganistão (2001) - 15 a 20 mm - 0,1 a 0,2%
    Guerra do Iraque (2003-2004) - 80 a 200 mm - 0,8 a 2%
    Fonte: The Economic Consequences of a War with Iraq, 2003. Na Web em: www.econ.yale.edu/~nordhaus/iraq.pdf

    Apesar deste impacto directo inicial não ser muito elevado, alguns analistas pretendem desvalorizá-lo ainda mais argumentando com a possibilidade do próprio petróleo do Iraque, agora sob nova administração directa por parte das potências ocupantes, poder financiar parte dos custos da operação e da reconstrução. Essa ideia é considerada, por outros, irrealista face ao enorme passivo acumulado do Iraque em dividas ao estrangeiro e em reparações de guerra ao Kuwait. Só para pagar este passivo seriam necessários 10 a 15 anos de exportações do Iraque a uma produção plena de 3 a 4 milhões de barris por dia aos preços elevados actuais. No relatório já referido, a Goldman Sachs adverte, por isso, os seus clientes americanos que provavelmente caberá aos contribuintes dos EUA pagar a factura de guerra, mais tarde ou mais cedo.

    Os calcanhares de Aquiles

    Contudo, as questões críticas não se prendem com este custo directo. Mas sim com o efeito macro-económico global e com o actual contexto das finanças públicas norte-americanas.

    A Guerra do Golfo, apesar de ter custado 76,1 mil milhões (bilhões) de dólares (a preços de 2002) e de ter representado, apenas, 1% do PIB americano, teve um impacto macro-económico negativo de 490 mil milhões (bilhões) de dólares entre o terceiro trimestre de 1990 e o primeiro de 1991. O PIB americano ressentiu-se com isso e em termos reais quebrou 1,3% no período daquela crise geo-política. Pela primeira vez, os gastos de guerra não induziram um efeito "multiplicador" na economia americana, como ocorrera significativamente aquando da 2ª Guerra Mundial e mais modestamente com as Guerras da Coreia e do Vietname (ver quadro).

    ESTIMULOS ECONÓMICOS DA ECONOMIA DE GUERRA NOS EUA
    2ª Guerra Mundial - 41,4% do PIB de incremento nos gastos da Defesa, 69,1% de impacto no crescimento do PIB real no período de 1939 a 1944
    Guerra da Coreia - 8% do PIB de aumento nos gastos da Defesa, 10,5% de impacto no crescimento do PIB real no período do 3º trimestre de 1950 ao 3º trimestre de 1951
    Guerra do Vietname - 1,9% do PIB no aumento dos gastos de Defesa, 9,7% no crescimento do PIB real no período do 3º trimestre de 1965 a 1º trimestre de 1967
    Guerra do Golfo - 0,3% do PIB no aumento dos gastos de Defesa, -1,3% (valor negativo) na evolução do PIB entre 3º trimestre de 1990 a 1º trimestre de 1991
    Fonte: The Economic Consequences of a War with Iraq

    Por isso, um impacto negativo na actual Guerra do Iraque não é de colocar de lado - um estudo dirigido por William Nordhaus, da Universidade de Yale, intitulado The Economic Consequences of a War with Iraq estima um efeito macro-económico negativo de 391 mil milhões (bilhões) de dólares, sem contar com a incógnita do impacto nos mercados petrolíferos. Por seu lado, o Center for Economic and Policy Research estima uma perda de 1,6 milhões de empregos em 2003 e 2004 em virtude deste efeito perverso.

    O outro calcanhar de Aquiles diz respeito ao problema orçamental. O ano fiscal de 2004 prevê um défice de 307 mil milhões (bilhões) de dólares (segundo a Goldman Sachs, no seu relatório de 26/03/03, poderá atingir os 425 mil milhões), onde ainda não estão cabimentados os custos da Guerra do Iraque e da continuação da presença no Afeganistão. Essas cabimentações adicionais terão de passar por autorizações suplementares, como aconteceu, em Março, com o pedido do Presidente Bush para um reforço de 74,7 mil milhões (bilhões) de dólares, dos quais 60 mil milhões (bilhões) já para o actual teatro de operações no Iraque.

    Segundo uma análise agora divulgada pela Comissão do Orçamento do Congresso norte-americano, a Administração Bush vai transformar uma previsão anterior de um excedente orçamental acumulado de 891 mil milhões (bilhões) de dólares entre 2004 e 2013 num défice acumulado de 1,82 biliões (trilhões, na designação anglo-saxónica e brasileira) de dólares para a década. Segundo as estimativas da Goldman Sachs (no referido relatório de 26 de Março) poderá atingir os 4,2 biliões (trilhões). Ou seja, os EUA vão ter de captar capitais dentro e fora dos EUA para cobrir este défice gigante.

    Segundo a Goldman Sachs, é provável que venha a haver, no futuro, uma subida nas taxas de juro em 30 pontos de base

    Ora, é baixo o retorno actual esperado por parte de investimentos em divisa americana ou em activos denominados em dólares. A não ser que a política das taxas de juro se altere 180º no futuro próximo.

    Segundo a Goldman Sachs, é provável que venha a haver, no futuro, uma subida nas taxas de juro em 30 pontos de base. Cada 100 mil milhões (bilhões) de dólares de aumento da dívida estatal devem gerar uma correcção em alta das taxas em 1,5 pontos de base. A consultora calcula a dívida acumulada para a década de 2004-2013 em 2,7 biliões (trilhões). Por outro lado, segundo a mesma consultora, cada 1% do PIB a mais no aumento do défice orçamental acarreta uma subida em 20 pontos de base da rentabilidade até à maturidade ("yeld", na linguagem técnica) das obrigações do Tesouro a 10 anos. Como a deterioração implicada pela política orçamental de Bush deverá rondar os 2% do PIB, estima-se que o "yeld" tenha de subir 40 pontos de base. O Instituto Brookings é mais radical - estima que cada 1% de deterioração deverá acarretar um aumento de 50 a 100 pontos de base.

    O próprio disparo nos gastos com a defesa está já a ser "pago" pela economia civil americana, apesar de alguns sectores privados ligados ao complexo militar-industrial estarem a beneficiar ou poderem vir a beneficiar da nova "economia de guerra" nas áreas de armamento, logística, informática, obras públicas e energia. O orçamento da defesa cresceu anualmente em termos nominais cerca de 10% entre o ano fiscal de 2001 e o de 2003. Atendendo ao crescimento do PIB norte-americano inferior a 2,5% em 2002 e às estimativas ainda mais baixas para 2003, é a economia civil americana que está a aguentar a "aspiração" pela defesa dos quase 70 mil milhões (bilhões) de dólares adicionais entre o final de 2001 e o final de 2003.

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