Faltam 3 milhões

Para Portugal convergir em 2030 com a média europeia têm de ser criadas 122 mil empresas por ano nos próximos 25 anos. A taxa de "empreendedorismo" teria de saltar quase para o dobro, revela estudo da Universidade de Évora

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de janelanaweb.com, Novembro 2005

Movida nas políticas públicas
  • Criação de um Observatório para o Empreendedorismo e a Inovação que integrasse a diversidade de políticas e medidas existentes
  • Aposta no ensino básico e secundário - experiências com êxito nas Astúrias ("Una empresa en mi escuela"), no Luxemburgo (banda desenhada na escola básica), Islândia (concurso Jovens Inventores), Holanda (projecto "Cidade Empreendedora"), Irlanda (empreendedorismo ligado a forte vertente profissionalizante), Suécia, Escócia e Eslovénia, programas com forte ligação às empresas locais e regionais
  • Um programa de televisão como "O Aprendiz", um género de 'reality show' com enorme sucesso na China, com base numa ideia norte-americana
  • Maior flexibilidade no subsídio de desemprego
  • Universidades e seus departamentos deveriam ser avaliados e financiados em função de indicadores como pedidos de patentes e criação de "spin-offs"
  • Fomento de sociedades de capital de risco independentes e mais especializadas, e obrigatoriedade de investimento de uma percentagem mínima em capital semente e em "start-ups"
  • O salto para a convergência económica e social com a União Europeia (U E) exige mais 3 milhões de novas empresas criadas em Portugal no próximo quarto de século. O que significaria mais 122 mil empresas por ano nos próximos 25 anos, duplicando a taxa actual de nascimento de firmas. Este esforço de criação empresarial seria superior inclusive ao período áureo do empreendedorismo na década de 1990.

    A simulação realizada por uma equipa do Centro de Estudos e Formação Avançada em Gestão (CEFAG) da Universidade de Évora pressupõe um crescimento anual médio do PIB na ordem dos 4,3% até 2030, a taxa indispensável para a convergência com a média europeia daqui a quase uma geração e para evitar ser ultrapassado por seis dos novos membros da U E..

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  • Países mais eficientes na promoção do empreendedorismo na Europa: Holanda (desde 1999 com o Relatório "The Entrepreneurial Society", Reino Unido (a iniciativa "Think Small First", desde 2000), Finlândia, Irlanda, Alemanha e Espanha (por exemplo, o caso do Governo Regional das Astúrias)
  • Experiências de Observatórios: Eslovénia, Gales e Irlanda
  • O estudo coordenado por Soumodip Sarkar, director do CEFAG, foi realizado para a recém-criada Unidade de Coordenação do Plano Tecnológico a funcionar junto do Ministério da Economia e Inovação. A simulação baseou-se nas correlações - muito estudadas ultimamente - entre duas taxas vitais do coração do tecido económico e social: a taxa de crescimento do PIB per capita (em paridade de poder de compra) e a taxa de empreendedorismo. Sarkar chama-lhes "irmãos de armas".

    A criação de empresas seria responsável por 40% do crescimento económico, algo empiricamente mais visível a nível do território local e regional. E particularmente as empresas de dimensão mais modesta: "Cada vez mais são as pequenas empresas as que criam mais postos de trabalho, confirmando-se que o espírito empresarial, associado a pequenas mas cirúrgicas empresas, é um bom contributo para o decréscimo do desemprego", refere o relatório.

    Zona negra

    O que o relatório do CEFAG sugere é que o tecido actual de 1,1 milhões de empresas (dados do INE de 2003) é, em termos qualitativos (sabe-se que muito do nosso empreendedorismo é de "sobrevivência" e com baixíssima base de conhecimento) e quantitativos, coxo para assegurar um desenvolvimento económico acima do sofrível ou do medíocre. Aliás, como o estudo mostra, Portugal é um dos países da U E em que a taxa de empreendedorismo e de crescimento do PIB per capita está numa "zona negra" abaixo da linha de tendência na Europa, face ao nível de rendimento per capita já atingido no período 2000-2005. O companheiro europeu nestas andanças negativas é Malta.

    A taxa de actividade empreendedora baixou em Portugal em 3 pontos percentuais entre 2001 e 2004, ou seja o número de empreendedores (entenda-se, indivíduos em negócios nascentes ou novos negócios com menos de 3 anos e meio) caiu de 7,1% da população activa no início daquele período para 4% no ano passado, segundo o estudo do GEM de 2004. Segundo, outro indicador, do Eurostat, a taxa de criação de empresas em relação ao número de firmas existente, teria baixado no nosso país de 9,45% em 1998 para cerca de 6% em 2002.

    O próprio abrandamento económico dos últimos anos estaria relacionado com o empobrecimento do tecido empresarial. Os indicadores disponíveis mostram alguns sintomas da doença. A taxa de actividade empreendedora (um indicador criado pelo GEM-Global Entrepreneurship Monitor) baixou em 3 pontos percentuais entre 2001 e 2004, ou seja o número de empreendedores portugueses (entenda-se, indivíduos em negócios nascentes ou novos negócios com menos de 3 anos e meio) caiu de 7,1% da população activa no início daquele período para 4% no ano passado, segundo o estudo do GEM de 2004. Segundo, outro indicador, do Eurostat, a taxa de criação de empresas em relação ao número de firmas existente, teria baixado de 9,45% em 1998 para cerca de 6% em 2002.

    A principal mensagem do estudo da Universidade de Évora é que este plano inclinado tem de ser revertido, mesmo que os "fantásticos" (como o próprio relatório classifica) 4,3% almejados possam ser uma miragem nos próximos 25 anos, sugerindo, por isso, várias políticas públicas ao Ministério da Economia (ver caixa).

    Terapias para empreender
    A terapia, para ter efeito, tem de actuar sobre um meio-ambiente social e político que seja favorável aos "empreendedores de vocação" (como lhes chama o especialista holandês Roy Thurik) e aos "empreendedores por oportunidade" (os que sabem agarrar oportunidades, na designação do estudo do GEM), que arraste, depois, inclusive os "empreendedores de sobrevivência" ou "por absoluta necessidade".
    Estes actores sociais emergem, não são fabricados em proveta nem decretados por leis ou planos. Mas o caldo de cultura que permite essa emergência ou o apoio no momento certo à sua afirmação, pode ser fruto de "acções voluntaristas" por parte das políticas públicas. Um dos problemas críticos em Portugal é a desatenção ao emergente, onde as oportunidades de aumentar a I&D privada, o patenteamento e a criação de emprego qualificado é maior, se as políticas públicas forem dirigidas nesse sentido.

    O valor acrescentado pelas start-ups tecnológicas é inferior a 5% do valor acrescentado bruto total, quase 40% abaixo da média da U E (a 15).

    Não admira, por isso, que apesar de haver 30 siglas de programas de "apoio" oficiais, sob o chapéu do PRIME (Programa de Incentivos à Modernização da Economia), da Agência de Inovação e do IEFP, o resultado é modesto. Como salienta o relatório do CEFAG, apesar da progressão do peso da incorporação tecnológica na exportação portuguesa desde 1995, o indicador não ultrapassava os 7% em 2003. Também o valor acrescentado pelas start-ups tecnológicas é inferior a 5% do valor acrescentado bruto total, quase 40% abaixo da média da U E (a 15).

    Outro ponto crítico é a importância de instigar o empreendedorismo desde pequenino - nos "empreendedores do futuro, entre os 3 e os 12 anos", sublinha o relatório. Para além do que tem já sido feito a nível universitário, o estudo propõe várias medidas de actuação a nível do ensino básico e secundário, bem como a dinamização mediática do tema através da televisão. Também sugere, polemicamente, que os critérios de avaliação dos professores universitários e de financiamento das universidades mudassem radicalmente, para incorporar indicadores como patentes e criação de "spin-offs".

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