Três "coisas" que nos faltam

Mais capital intelectual
Mais globalização
Mais empreendedorismo

Report Janelanaweb.com "Para onde vai Portugal"
Nº1/2005
Editor: Jorge Nascimento Rodrigues


I - A "coisa" nº 1
Penúltimo nos 15 no "intangível"

Estamos a 20 pontos da média da UE15 em capital intelectual. Um estudo promovido por Leif Edvinsson e Ahmed Bounfour identifica 10 pontos fracos da competitividade portuguesa ligados à falta de investimento em recursos que geram capital estrutural e em activos intangíveis.

Palavras-chave para os policy makers: patentes; venture capital; I&D empresarial; jovens licenciados em engenharia e ciências; exportações inovadoras; tecnólogos na população empregada; serviços de base tecnológica; mais PME inovadoras

A doença da competitividade portuguesa tem a ver com deficiências graves em várias áreas do que se denomina por "capital intelectual", que empurram Portugal para o penúltimo lugar num "ranking" da União Europeia (a 15 membros, antes do último alargamento). Apenas a Grécia está em pior situação. Os vencedores do "ranking" são, uma vez mais, os nórdicos e a Holanda.

 ÍNDICE DO CAPITAL INTELECTUAL NA EUROPA 
 UE15 45 
 Suécia 70 
 Holanda 63 
 Finlândia 60 
 Dinamarca 60 
 Reino Unido 58 
 Irlanda 57 
 Alemanha 47 
 França 46 
 Áustria 45 
 Bélgica 42 
 Espanha 32 
 Itália 32 
 Portugal 25 
 Grécia 21 
 Fonte: Ahmed Bounfour, Intellectual Capital for
 Communities, 2005, Pontuação de um Índice
 global na base das pontuações em 23 indicadores 

Os pontos fracos do nosso país centram-se sobretudo na desatenção ao investimento nos recursos que favorecem o desenvolvimento de capital intelectual - como os gastos em Investigação & Desenvolvimento ou a disponibilidade de capital de risco - e na falta de massa crítica em activos intangíveis, por exemplo, patentes, licenciados jovens, publicação de artigos científicos, tecnólogos na população activa.

Capa do livro Intellectual Capital for Comunities De facto, segundo o primeiro estudo sobre capital intelectual na Europa - agora divulgado no livro Intellectual Capital for Communities, editado pela Butterworth-Heinemann - as maiores distâncias de Portugal em relação à média da U E 15 revelam-se na área dos recursos onde a divergência é de 31 pontos e nos activos imateriais em que a divergência é de 30 pontos.

Contudo, há que ter em conta que os "rankings" publicados se baseiam em dados estatísticos que variam, consoante os 23 indicadores utilizados como "métricas de aproximação", entre 1995 e 2000. Pelo que a fotografia é, apenas, indicativa. «No caso de Portugal, inclusive alguns relatórios mais recentes, com dados posteriores a 2000, referem iniciativas importantes de fomento da inovação, que tendem a sugerir que o país está num processo de apanhar o combóio. Contudo, uma nova análise requer pelo menos dados para um novo período de cinco anos», referiu o autor do estudo, Ahmed Bounfour, um professor da Universidade de Marne-La-Vallé perto de Paris.

Onde estão as falhas estruturais?

No campo do investimento em recursos, a nossa posição seria mesmo a pior da UE15 - as falhas estruturais mais profundas encontram-se na muito fraca investigação & desenvolvimento realizada nas empresas (38 pontos de divergência em relação à média) e no peso insignificante do capital de risco (40 pontos de divergência). A situação de divergência mais grave encontra-se, contudo, num indicador relativo aos activos imateriais - o número de patentes de alta-tecnologia registadas na Europa em relação à população, em que a distância é de 50 pontos em relação à média europeia.

No campo dos activos intangíveis, não é de mais sublinhar que sem ovos não é possível fazer omeletes - além do problema muito grave das patentes (último lugar ex-aequo com a Grécia), há a fraqueza do emprego de base tecnológica nos serviços (penúltimo lugar na Europa), a fraca produção de artigos científicos (onde somos os piores) e a necessidade de continuar a melhorar no número de jovens licenciados em engenharias e ciências (onde, apesar de estarmos a 30 pontos da média, temos por companhia países como Itália, Bélgica, Holanda e Dinamarca) e no emprego de tecnólogos (só a Grécia está pior do que nós).

OS "CHOQUES" QUE FALTAM
Onde temos os índices mais divergentes da "média" europeia
1.  Número de patentes europeias de alta-tecnologia per capita (50 pontos de divergência)
2.  Recurso a Capital de Risco (venture capital, na designação anglo-saxónica) em percentagem do PIB (40 pontos de divergência)
3.  Emprego em alta tecnologia nos serviços (40 pontos de divergência)
4.  Sectores de alta-tecnologia no valor acrescentado bruto (40 pontos de divergência)
5.  I&D nas empresas em % do PIB (38 pontos de divergência)
6.  Licenciados em ciências e engenharia entre os 20 e os 29 anos (30 pontos de divergência)
7.  Exportações inovadoras em % das vendas (30 pontos de divergência)
8.  I&D público em % do PIB (30 pontos de divergência)
9.  PME inovadoras (30 pontos de divergência)
10.  Empregos de base tecnológica na população activa (25 pontos de divergência)

A nossa "performance" global na gestão dos processos de criação de valor e nos resultados obtidos é mais favorável, sendo idêntica à de Espanha. Por exemplo, o peso no PIB dos mercados de tecnologias de informação e comunicações já é superior ao da média europeia. O que leva o autor deste "ranking" a considerar que «há um potencial para Portugal melhorar as suas capacidades em transformar 'inputs' em 'outputs' - há indiscutivelmente uma margem importante de progresso». Contudo, o peso da alta-tecnologia no VAB é muito fraco, bem como as exportações inovadoras nas vendas totais das empresas.

Esta bateria de indicadores do capital intelectual nacional foi sistematizada por Ahmed Bounfour investigador no Laboratório de Organização e Eficácia da Produção situado na Cité Descartes no vasto "campus" da Universidade de Marme-La-Vallé. Bounfour baseou-se numa série de 23 indicadores aplicada à União Europeia a 15 e baptizou a metodologia de "valor dinâmico do capital intelectual", com a etiqueta registada de IC-dVAL, considerando-a "consistente com a Agenda de Lisboa". O capítulo 7 do livro já referido contém os "rankings" elaborados, agora, por Bounfour. O autor pretende este ano estender a análise aos novos países aderentes da U E. A abordagem foi pela primeira vez explicada num artigo científico publicado no Journal of Intellectual Capital, em 2003 (volume 4, número 3), e corresponde "a dez anos de investigação", refere Ahmed Bounfour.

Bounfour aconselha, em entrevista a Gurusonline.tv (só disponível em inglês), a que cada país faça o seu "benchlearning", ou seja um estudo com vista a uma relação dinâmica de "apropriação" de conhecimento e não de cópia ou mera comparação como acontece no tradicional "benchmarking".

No caso português, podem estudar-se 15 áreas e escolher os países em que as políticas e acções tiveram melhores resultados na Europa. Também, não será desproporcionado fazer uma análise dos pontos em que a nossa vizinha Espanha terá melhores práticas.

COM QUEM FAZER O "BENCHLEARNING"
"The best in class" nos pontos fracos portugueses
1.  na I&D empresarial - Suécia e Finlândia
2.  no capital de risco - Reino Unido e Suécia
3.  na geração de novo capital - Finlândia e Holanda
4.  na inovação nas PME - Irlanda, Dinamarca, Áustria e Alemanha
5.  na cooperação entre PME - Dinamarca
6.  no peso da alta tecnologia no VAB - Irlanda e Suécia
7.  no peso das exportações inovadoras nas vendas das empresas - Suécia
8.  na chegada de novos produtos ao mercado - Finlândia
9.  na produção de artigos científicos - Suécia e Dinamarca
10.  no registo de patentes europeias - Holanda e Finlândia
11.  peso dos jovens licenciados - Reino Unido, Irlanda e França
12.  peso da população com ensino superior - Suécia, Reino Unido e Dinamarca
13.  ensino ao longo da vida - Suécia, Reino Unido e Dinamarca
14.  tecnólogos na população empregada - Alemanha
15.  emprego em alta tecnologia nos serviços - Suécia e Dinamarca

"BENCHMARK" COM ESPANHA
1.  A nível geral de desenvolvimento de recursos - divergência de 25 pontos a favor do nosso vizinho
2.  A nível geral de gestão dos processos - posição idêntica
3.  A nível geral dos indicadores de resultados - posição idêntica
4.  A nível geral de activos imateriais - divergência de 12 pontos a favor do país vizinho
5.  No índice geral de Capital Intelectual -divergência de 10 pontos a favor do nosso vizinho

MELHORES PRÁTICAS EM ESPANHA
Onde temos os índices de maior divergência com o país vizinho
Nos recursos:
Geração de novo capital em % do PIB, empreendedorismo - divergência de 60 pontos a favor do nosso vizinho
Nos activos imateriais:
Peso de jovens licenciados entre os 20 e 29 anos em % da população - divergência de 20 pontos a favor do país vizinho
Peso de tecnólogos no emprego - divergência de 20 pontos a favor do nosso vizinho
Peso de emprego de alta tecnologia nos serviços - divergência de 20 pontos a favor do vizinho

Referências:

  • Artigo científico de apresentação da metodologia, no Journal of Intellectual Capital - 2003, volume 4, número 3 - Abstract aqui
  • Entrevista em inglês com Ahmed Bounfour em gurusonline.tv
  • Encomenda na Amazon do livro Intellectual Capital for Comunities
  • Bounfour pode ser contactado pelo E-mail: bounfour@univ-mlv.fr
  • Página na Web de Ahmed Bounfour na Université Marne-La-Vallé

  • II - A "coisa" nº 2
    Mais desejo que coragem

    Medo de falhar inibe empreendedorismo luso, segundo o último estudo da Comissão Europeia

    Palavras-chave para os policy makers: educar contra o medo de falhar; melhorar o contexto financeiro para os empreendedores e as start-ups

    A posição portuguesa é paradoxal na Europa: somos os campeões do desejo de independência pessoal, mas depois não concretizamos a vontade de empreender. Segundo o último Eurobarómetro da Comissão Europeia, 62% dos portugueses pretendem ser independentes economicamente, desejariam ser patrões de si próprios, mas não têm coragem de dar o passo empreendedor, porque 62% têm medo de falhar e 82% alegam falta de apoio financeiro. Apesar de só 32% quererem ser empregados por conta de outrém, a vontade de corte não passa à prática em Portugal. A cultura da dependência é, ainda, muito forte no nosso país, apesar de três gerações de empreendedores já terem visto a luz do dia desde 1974 - após a estabilização democrática em 1975, com a adesão à CEE em 1986, e com a emergência da economia digital depois de 1995.

    São mais os portugueses que querem ser independentes economicamente do que os próprios americanos (61%) e muito mais do que a média europeia (45%). Portugal é mesmo o campeão desse desejo nos 28 estados europeus em que foi realizado o inquérito do Eurobarómetro. Próximo só a Irlanda e a Islândia, com 58% de respostas afirmativas. Se compararmos com países com a mesma população na actual União Europeia (como a Bélgica, República Checa e Hungria) e com o nosso vizinho (Espanha), o desejo de não ser empregado supera todos largamente, mas o medo de falhar encontra parceiros na Hungria (que é o campeão europeu, com 80% de respostas afirmativas) e na República Checa (61%), países que durante cinco décadas desenvolveram uma cultura estadista de emprego seguro.

    A consulta do "ranking" completo revela que a geografia do medo de falhar (respostas acima de 50%) abrange 17 dos 25 países aderentes, e que, com mais medo do que os portugueses, se encontram a Letónia, Lituânia, Eslovénia, Malta e Hungria. O paradigma dos sem medo é a Irlanda (apenas 29% das respostas), revelando uma postura mais ousada que a norte-americana (33%), e muito distanciada dos seguintes. Abaixo dos 45% com medo encontram-se, neste Eurobarómetro de 2004, a Finlândia, Reino Unido, França, Grécia, Holanda e Espanha.

    A alegação da falta de apoio financeiro para as iniciativas empreendedoras não é exclusiva das lamentações portuguesas - é generalizada na Europa (74%), mas mais acentuada na Lituânia, Eslováquia, Grécia, Polónia, Eslovénia, Hungria, com percentagens de respostas acima da portuguesa.

    O inquérito foi levado a cabo em meados de 2004 junto de 21 mil pessoas em 29 estados, incluindo 18 500 entrevistados na União Europeia a 25 membros, um milhar de americanos e 1500 cidadãos da Noruega, Islândia e Liechtenstein, pela EOS Gallup Europe para a Direcção Geral de Empresa e Indústria da Comissão Europeia. Realizado pelo quarto ano consecutivo pelo Eurobarómetro, é a primeira vez que abrange toda a União a 25.

    EUROBARÓMETRO DA VONTADE EMPREENDEDORA
    (% das respostas no "Survey" de 2004)
     Países Ser
    independente
    Ser
    empregado
    Medo
    de falhar
    Falta de apoio
    financeiro
     Portugal 62 32 62 82
     UE25 45 50 51 74
     EUA 61 34 33 69
     Espanha 56 34 44 73
     Bélgica 34 58 52 74
     Rep. Checa 30 55 61 74
     Hungria 42 45 80 83
     Fonte: Eurobarometer 2004, Janeiro 2005; Países da EU com população similar à
     portuguesa: Hungria com 10,1 milhões, Republica Checa com 10,3, Bélgica com 10,2 

    Referências:

  • Sítio do Eurobarómetro
  • Relatório de 2004

  • III - A "coisa" nº 3
    Falta mais globalização nas PME inovadoras

    As pequenas e médias empresas portuguesas são boas a lançar novos serviços e produtos e têm uma presença significativa nos mercados na Europa, muito acima de Espanha. Falta-lhes globalização, onde estão abaixo da "média" da U E 25, e mais inovação nos processos onde o nosso vizinho ainda nos supera.

    Palavras-chave para os policy makers: apoiar expansão global, para fora da U E; apoiar melhoria na inovação nos processos

    Na geografia da inovação em serviços e produtos lançados nos últimos dois anos, as PME (entre 20 e 500 empregados) portuguesas estão entre os seis líderes europeus na U E 25, partilhando o grupo de topo com a Lituânia, Polónia, Alemanha, Malta e Áustria. As nossas PME estão, neste terreno, muito mais viradas para o lançamento de novidades ou para a melhoria significativa dos produtos e serviços existentes do que as espanholas, as irlandesas ou as finlandesas. Também a presença dos inovadores portugueses nos mercados da União Europeia é superior à média da U E 25 e coloca-nos ao nível de uma Dinamarca ou de uma Suécia, e muito melhor do que Espanha.

    Na inovação em processos nas PME estamos numa posição inferior à que ocupamos na inovação em produtos e serviços, mas mesmo assim estamos acima da média europeia. A distância em relação a parte do grupo líder não é significativa - 60% das PME portuguesas declaram introduzir novos processos ou alterar significativamente os existentes, contra 63% na Eslovénia e na Polónia, 65% em Espanha e 67% na Dinamarca.

    "BENCHMARK" COM OS MELHORES
    Novos serviços e novos produtos lançados nos últimos dois anos: grupo dos 5 com mais de 81% de respostas - Lituânia, Polónia, Alemanha, Malta, Áustria
    Novos processos lançados: grupo dos 5 líderes - Áustria, Dinamarca, Espanha, Polónia e Eslovénia
    Presença de empresas inovadoras no mercado europeu: grupo dos 4 com mais de 60% das respostas - Áustria, República Checa, Bélgica e Luxemburgo
    Presença global fora da Europa por parte de empresas inovadoras: grupo dos 3 líderes com mais de 40% das respostas - Eslovénia, Áustria e Suécia

    Na comparação com os países de Leste novos aderentes com uma população similar à portuguesa, levamos a dianteira em relação à Hungria e à República Checa em matéria de inovação, mas este último país exporta mais para a U E do que nós.

    O ponto fraco

    O ponto fraco das PME portuguesas está na globalização. Apenas 28% das PME declararam vender fora da U E, um valor abaixo da média europeia e de alguns novos membros como Eslovénia, Malta e República Checa. É na globalização, vendendo serviços e produtos inovadores para fora da U E, que as PME portuguesas estão mais distanciadas dos bons exemplos europeus - como os que vêm da Eslovénia, da Áustria ou da Suécia, em que quase 50% das PME vende fora da Europa. Mas, mesmo assim, estamos à frente de Espanha.

    Estes dados foram divulgados pelo último Inobarómetro (barómetro da inovação), agora, publicado pela Comissão Europeia, com base num "survey" realizado pela EOS Gallup Europe a 4534 gestores de PME dos 25 estados membros ouvidos entre 20 de Setembro e 11 de Outubro do ano passado. A amostra em Portugal abrangeu 100 gestores.

    BARÓMETRO DA INOVAÇÂO EUROPEIA DAS PME
    (% das respostas)
     Países Novos
    serviços/
     /produtos 
    Novos
     processos 
     Presença 
    mercado
    europeu
     Fora 
    da
    UE
     U E 25 74 56 46 32
     Portugal 81 60 53 28
     Espanha 67 65 36 25
     Hungria 63 31 43 28
     Rep. Checa  77 49 64 35
     Fonte: Innobarometer, Survey de Setembro e Outubro de 2004 
     nos 25 estados membros da UE

    Referências:

  • Notícia sobre o Barómetro
  • PDF sobre os resultados
  • PDF com o barómetro
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