Dois olhares sobre a crise estrutural portuguesa

Do paradoxo (empreendedor) português à míngua do Capital Humano

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de janelanaweb.com, 3 Outubro 2005

Primeiro Olhar
O paradoxo português

O holandês ROY THURIK ficou intrigado com os extremos lusitanos: enorme vontade de criar empresa própria, mas fraca concretização e baixo impacto na geração de emprego. O especialista em empreendedorismo foi à procura dos porquês e teve ajuda de Rui Baptista, um investigador do IST

O empreendedorismo é algo muito forte no desejo dos portugueses. Os técnicos dos estudos deste fenómeno social chamam-lhe "empreendedorismo latente" - em Portugal é mais elevado do que na Irlanda e mesmo nos Estados Unidos, o paraíso destes personagens e da chamada "economia empreendedora". São mais os portugueses que querem ser independentes economicamente (62%) do que os próprios norte-americanos (61%) e muito mais do que a média europeia (45%). Portugal é mesmo o campeão desse desejo nos 28 estados europeus em que foi realizado o inquérito do Eurobarómetro da Comissão Europeia deste ano. Próximo só a Irlanda e a Islândia, com 58% de respostas afirmativas.

O primeiro problema é, depois, nos "finalmente", na concretização. O desejo é muito maior do que a coragem de dar o passo - o empreendedorismo depois de andar pelos 12% da população activa em 1972, atingiu um pico em meados dos anos 1990 com 16% e estabilizou nos 14% em 2002.

O segundo problema é que o impacto destas vagas é limitado na criação de emprego.

Este paradoxo lusitano intrigou o holandês Roy Thurik, professor na Universidade Erasmus de Roterdão, na Universidade Livre de Amsterdão e no Instituto Max Plank de Economia, na Alemanha, que veio a Lisboa por ocasião do 30º aniversário do IAPMEI, falar de empreendedorismo e crescimento económico, a sua especialidade. Thurik tem no prelo The Handbook of Entrepreneurship and Economic Growth, a ser publicado no próximo ano em Inglaterra e nos Estados Unidos. A tese deste "cowboy solitário da academia" (como se auto-define), de 53 anos, é que o empreendedorismo está estreitamente ligado à densificação do tecido económico com pequenas empresas que empurram a inovação e o crescimento de longo prazo, o que o levou a fundar e dirigir o Center for Advanced Small Business Economics, na Escola de Economia de Roterdão. O livro aponta para uma conclusão técnica que os decisores políticos deveriam anotar: "Mais do que ser percebido como um bem social que deve ser mantido mesmo que com custos económicos, a evidência recente econométrica sugere que o empreendedorismo é um determinante vital do crescimento económico". Thurik alega no livro que a "Europa já despertou para esta realidade", particularmente com o "choque da globalização", que está a "ensanduichar" o Velho Continente. Seria bom que Portugal fosse, neste campo, um bom aluno europeu, tanto mais, diz-nos o holandês, "que os portugueses estão provavelmente a sofrer mais com o impacto da globalização do que outros na Europa". Um choque que poderá ser mais forte do que o provocado pela crise petrolífera dos anos 1970 e 1980 ou pela entrada na Comunidade Europeia em 1986.

O embróglio: "Empresas de subsistência"

A curiosidade pela "anomalia" lusitana - para mais sendo os portugueses, estranha Thurik, "herdeiros do ADN das Descobertas, que nos inspirou a nós holandeses" - levou o académico a procurar entender os porquês.

As conclusões apontam para a baixa tolerância social ao risco, um nível educacional e de conhecimento dos empreendedores ainda muito insuficiente e as barreiras financeiras e administrativas que ainda perduram particularmente para um tecido cada vez maior de micro-empresas (firmas com menos de 10 empregados), muitas delas a raiar um "empreendedorismo de subsistência", uma espécie de empresários por "não haver outras alternativas de emprego".

Também haveria que entender, alega Thurik, que há uma "demora" de alguns anos entre a criação de micro-empresas e a redução da taxa de desemprego, um atraso mais longo em Portugal do que noutros países europeus. Os micro-empresários lusos levam mais tempo a arriscar criar empregos permanentes.

O estudo está em curso de finalização, com um artigo científico assinado com Rui Baptista, do Instituto Superior Técnico, que estuda a dinâmica de relacionamento entre o auto-emprego e o desemprego no período de 1974-2002, fazendo um "benchmark" entre Portugal e a OCDE. Uma das pistas de mudança parece ser o facto de que, em 2002, os estudos de Rui Baptista já detectaram um crescimento mais vincado do empreendedorismo de vocação (para se distinguir do de "subsistência"), baseado no reconhecimento de oportunidades de negócio e virado para a criação de emprego.

Outros artigos sobre o tema:
www.janelanaweb.com/crise/3coisas.html
www.janelanaweb.com/reinv/sindroma.html

Página pessoal do Prof. Roy Thurik:
www.few.eur.nl/few/people/thurik/

Segundo olhar
Capital Humano continua doente

O factor crítico do crescimento económico está abaixo da linha de água em Portugal, em posição mais débil do que alguns países latino-americanos e asiáticos

É um dos indicadores em que Portugal está pior na fotografia. Em 33 países estudados pelo Deutsche Bank Research (DBR), o país encontra-se em 26º lugar em termos de nível de educação da população trabalhadora, entre os 25 e os 64 anos, para dados de 2000. Países latino-americanos e do sudoeste asiático, como o Chile (21º), Argentina (24º) e Malásia (23º) encontram-se à nossa frente (ver gráfico). A comparação com a Grécia (19º), Itália (20º) e Espanha (22º) é, também, desfavorável, segundo o estudo do DBR, agora divulgado em Agosto ("Human Capital is the key to growth - Success stories and policies for 2020"). A diferença é, ainda, mais acentuada em relação ao resto dos países desenvolvidos e a casos como o da Coreia do Sul (6º lugar). "O sector do Ensino português tem desapontado desde há muito e a população trabalhadora tem muito menos educação formal do que na Coreia do Sul, o caso de incrível sucesso nos últimos 15 anos, e na Espanha que se posiciona para dar um salto nos próximos quinze. Esta fraqueza em capital humano é provavelmente uma das razões porque Portugal não tem conseguido convergir com a União Europeia (dos 15) em termos de PIB per capita", afirmou-nos Stefan Bergheim, responsável pelo DBR.

As soluções keynesianas estavam desactualizadas e eram inapropriadas em economias abertas. O enfoque prioritário no capital físico pode ser ineficiente do ponto de vista macro-económico. Há uma interacção muito importante entre a abertura ao exterior e o capital humano na economia.

Stefan chama a atenção que a situação actual de muitos países com crescimento económico medíocre e níveis de capital humano fracos é resultado de decisões erradas ou não tomadas há 20 anos atrás. Pelo que políticas iniciadas, agora, só terão efeito no longo prazo. Em contraponto, os casos da Coreia e de Espanha são ilustrativos. "As raízes do salto da Coreia para o 6º lugar mundial do capital humano datam de há umas décadas. Toda a gente compreende, naquele país, quer no Estado, quer nas famílias, que o capital humano é o factor de produção mais importante nas economias baseadas no conhecimento. Por isso, vamos, ainda, ouvir falar mais na Coreia nos próximos anos, que deverá aumentar em mais 15% o seu capital humano, aproximando-se de líderes, como a Alemanha, os EUA e o Japão", sublinha o especialista alemão.

A Espanha é apontada como o caso de país europeu que nos próximos 15 anos poderá ter um crescimento do capital humano na ordem dos 20%, o mesmo salto relativo que a Coreia fez no passado. E esse objectivo será atingido com um investimento que é inferior a 5% do PIB - Portugal gasta 6%. Os maiores crescimentos em capital humano nos próximos 15 anos deverão ocorrer na Índia, África do Sul, China, Tailândia, Itália e Espanha. Os cálculos do modelo do DBR apontam para um impacto no longo prazo de 9% no crescimento do PIB per capita na sequência de um aumento de 10% no capital humano.

A estagnação no investimento no capital humano foi particularmente visível em países como a Alemanha (líder mundial) ou a França. Explica o perito do DBR: "Um capital humano estagnado é provavelmente a principal razão para o crescimento 'soft' naqueles dois países europeus nos últimos cinco a dez anos. Na Alemanha, o sector estagnou depois do 'boom' do início dos anos 1970 e o próprio sistema de formação dos aprendizes - muito elogiado nos anos 1960 e 1970 - já está desajustado. Hoje requerem-se mais competências gerais, e para fazer essa transição é indispensável o ensino superior formal".

Os pais do conceito

Foi o Nobel Gary Becker que cunhou em 1964 o termo 'capital humano', num livro assim intitulado (3ª edição em 1993, Columbia University Press), que desenvolvia o ponto de vista expresso dois anos antes num artigo inovador publicado no Journal of Political Economy ("Investment in Human Capital: A Theoretical Analysis"). Nos anos 1990, o economista de Stanford, Paul Romer, relacionou o capital humano com o crescimento baseado no conhecimento ("Human Capital and Growth: Theory and Evidence," Carnegie Rochester Conference Series on Public Policy, 32, 1990), e, em 1998, o Nobel Robert E. Lucas modelizou essa relação no artigo "Industrial Revolution: past and future" (vide o livro mais recente do autor, Lectures on Economic Growth, da Harvard University Press, 2002).

Alguns países compreenderam o que os teóricos quiseram dizer: "Perceberam que as soluções keynesianas estavam desactualizadas e eram inapropriadas em economias abertas. O enfoque prioritário no capital físico pode ser ineficiente do ponto de vista macro-económico. Há uma interacção muito importante entre a abertura ao exterior e o capital humano na economia - países com capital humano mais elevado podem aprender mais facilmente com o estrangeiro e tirar maior partido dos impactos benéficos da abertura ao comércio", explica o estudo do DBR.


© Janelanaweb.com, 2005

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