Portugal com Atraso em Todos os Sectores

No final de 1996, quando o «bug» do ano 2000 começou a ser falado, o director geral de uma empresa portuguesa questionou o responsável pelo departamento de informática sobre o impacto que o problema poderia ter nos seus computadores. Apanhado de surpresa, o informático respondeu: «Não há problema». E avança com a solução milagrosa: «Já verifiquei que o dia 1 de Janeiro de 2000 é a um Sábado, por isso temos o fim-de-semana todo para resolver o assunto». O episódio anedótico, que ficou célebre nos meios informáticos nacionais, pode pecar por algum exagero, mas não deixa de ilustrar certa mentalidade nacional optimista por natureza que conduz muitas vezes avaliação deficiente dos problemas e à consequente falta de planeamento.

Não surpreende por isso que, a análise global da situação portuguesa no que se refere conformidade com o ano 2000 revele existir, salvo algumas raras excepções, um atraso generalizado na inventariação e na resolução do problema. A começar pela própria Administração Pública, que só muito parcialmente conseguiu fazer um levantamento do problema. As «task force» (grupo de trabalho) para a resolução do ano 2000 de cada Ministério lançaram um inquérito às várias instituições e organismos oficiais, mas as respostas têm sido quase nulas pela dificuldade em efectuar os levantamentos, os custos não estarem ainda inventariados e não se conhecerem as datas de conclusões dos planos. Estimativas preliminares apontam para que a resolução do problema no Estado atinja um custo global de 30 milhões de contos e 50 milhões de contos a nível nacional. «Tem faltado informação efectiva em que medida é que o problema está a ser resolvido, ou a garantia de que está sobre controlo», reconhece José Dias Coelho.

Talvez pelos indícios da existência de algumas situações de alguma gravidade, o Ministério da Ciência e Tecnologia, que tem a responsabilidade de coordenação das acções a nível nacional, tenha preferido censurar as conclusões do Segundo Relatório produzido pela Missão para a Sociedade da Informação antes de serem disponibilizadas na Internet (http://ano2000.mct.pt). Para José Dias Coelho, Presidente da Missão para a Sociedade da Informação, a não disponibilização pública da versão do Relatório que foi apresentada a Conselho de Ministros não ficou a dever-se à existência de «elementos bombásticos que pudessem alarmar as pessoas», mas pelo facto de alguns problemas detectados envolverem ministérios específicos que, garante, estão no bom caminho para a resolução dos mesmos.

Deverá, entretanto, ser apresentado muito em breve a Conselho de Ministros uma terceira versão do Relatório mas que, desta vez, deverá ser tornado público na sua versão integral. Irá conter uma avaliação mais precisa da realidade da Administração Pública e traz como principal novidade a criação obrigatória de planos de contingência (ver caixa) e uma recomendação clara à resolução de uma área que mais estará a preocupar o Governo: os equipamentos médicos cirúrgicos e outros sistemas embebidos programáveis.

Uma outra componente do Relatório diz respeito à obrigatoriedade das empresas que prestam serviços públicos concessionados (electricidade, água, telefones) serem «responsabilizadas pela solução do problema na sua esfera de acção e informarem o Governo regularmente, através da respectiva tutela». Por outro lado, estabelece que todos os institutos e organismos públicos que têm uma função de supervisão - Banco de Portugal, Instituto de Seguros de Portugal , Instituto de Comunicações de Portugal, Instituo da Água, etc. - entreguem trimestralmente, à respectiva tutela e à Missão para a Sociedade Informação um relatório circunstanciado do estado de conformidade com o ano 2000.

O sector privado também merece especial atenção solicitou à Comissão de Mercado de Valores Mobiliários que solicitassem às empresas cotadas o ponto de situação sobre o ano 2000, na perspectiva de que o mercado possa estar informado regularmente sobre a forma como estão a resolver o problema.

Com efeito, as empresas privadas, se exceptuarmos algumas instituições financeiras e multinacionais instaladas em Portugal , encontra-se também atrasado na resolução da conformidade com o ano 2000. Mais grave ainda será o caso das PME, sobretudos aquelas cuja actividade depende de sistemas controlados por data. De acordo com um levantamento efectuado pela Assoft, (ver entrevista na página 13), a maioria dos dirigentes das empresas de pequena e média dimensão ainda não tomou consciência da importância do problema. «Receia-se a atitude leviana e ocultação de informação por parte de alguns sectores », admite o Presidente da Missão para a Sociedade da Informação. E conclui: «É possível que as pessoas procurem minimizar ou até camuflar o problema por não conseguirem resolver atempadamente» Mas há também alguma displicência e atitude de procurar ignorar o facto por estarem convencidos que o problema do ano 2000 é um problema técnico de menor importância».

Planos de contingência em 1999
Todos os departamentos da administração pública, vão Ter de elaborar, até ao final do primeiro semestre de 1999, planos de contingência que permitam fazer face a eventuais falhas resultantes do problema informático do ano 2000, determina uma directiva do terceiro Relatório produzido pela Missão para a Sociedade da Informação. Esta exigência, que deverá ser em breve aprovado em Conselho de Ministros, também abrange os organismos públicos com funções de regulação e de supervisão, constitui uma forma do Executivo prevenir problemas maiores em organismos que têm tido dificuldade em fornecer informação regular e actualizada sobre o grau de conformidade com o ano 2000. «A ausência de resposta de alguns sectores inquiridos tem sido uma dos principais factores de preocupação. Enquanto os responsáveis pelos organismos não disserem claramente que a situação está controlada, temos de admitir que não está», refere um fonte do Ministério da Ciência e Tecnologia. E acrescenta: « Muitas respostas que recebemos são vagas e com boas intenções, mas não colocam o preto no branco. Daí a necessidade destes planos de contingência».
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