Conselhos Práticos

O casal Silva há muito que acalentava um velho sonho: fazer a passagem paea o ano 2000 num local exótico com praia e muitas palmeiras. Fizeram uma poupanças e rumaram no dia 29 de Dezembro de 1999 para uma ilha paradisíaca no oceano Índico, onde lhes foi prometido um «réveillon» de sonho. Já próximo do momento mágico, dirigem-se para a discoteca do hotel onde a animação era grande.. Mas, com o soar das doze badaladas, acontece o que menos esperavam: as luzes apagam-se, a música desaparece e os dispositivos de incêndio disparam, molhando todos os convivas. Em pânico, o casal consegue sair da discoteca e procura regressar ao hotel para trocar de roupa. Como o elevador não estava operacional, decidem subir 12 andares pelas escadas, mas a porta do quarto recusa-se a abrir: a chave tipo cartão magnético não funciona. Furiosos, os Silvas voltam a descer os doze andares pelas escadas e dirigem-se à recepção do hotel onde outros hóspedes também já protestavam. Decidem então telefonar para os familiares em Portugal, mas o telemóvel também não funciona. Com a noite estragada, só lhes resta dar uma volta com o automóvel que tinha alugado na véspera. Mas, ao dirigirem-se ao parque de estacionamento verificam espantados que têm 100 anos e um dia de parquímetro para pagar.

Será esta narrativa um exemplo do cúmulo do azar? Exagero à parte, tudo indica que alguns dos episódios vividos pelo casal Silva acontecer um pouco por todo o lado na passagem para o ano 2000. Para evitar que a sua vida se transforme num inferno, numa data que se pretende festiva, leia as perguntas e as respostas que se seguem e siga alguns dos conselhos práticos.


As minhas contas bancárias correm perigo?

Os bancos portugueses são tradicionalmente grandes investidores de tecnologias de informação e têm feito um significativo esforço para a resolução do problema do ano 2000. Se em relação à transicção para a Moeda Única ainda têm alguma margem de manobra, a não conformidade com o milénio ser-lhes-ia do ponto de vista comercial catastrófica. Ou seja, se surgissem erros nas contas bancárias e nos empréstimos, os clientes perderiam a confiança - questão vital no sector - e passariam em massa para as instituições concorrentes.
No início de 1998, ainda existiam alguns indícios de atraso, o que terá levado o Banco de Portugal a emitir um alerta no sentido de todas as instituições financeiras garantirem a conformidade com o ano 2000. O Grupo CGD, a maior instituição financeira portuguesa, garantiu ao EXPRESSO que os seus clientes «podem estar completamente descansados quanto aos seus activos e passivos».
Mas, apesar de todas as garantias, o leitor não perde nada em acautelar-se em relação a um possível problema - impossibilidade temporária de levantamento de dinheiro com cartão Multibanco. Recomenda-se que tenha no bolso algum dinheiro durante o periodo crítico e que observe atentamente o último extracto de conta de 1999 e o primeiro de 2000. E confira, no caso de ter contraído um empréstimo ou um «leasing» se o plano de prestações e o cálculo de juros está de acordo com o que foi contratado.

Os investimentos na bolsa são seguros?

Se é um investidor da bolsa de valores, não há razões para entrar em pânico. Mas pode acontecer, segundo alguns especialistas, que em Dezembro de 1999 aconteçam nas bolsas de todo o mundo uma forte instabilidade e um recorde de vendas. Tente perceber quais são os títulos que podem sofrer mais com a pasaagem para o ano 2000.

Os cartões de crédito e de débito perdem validade?

As grandes empresas emissoras já solucionaram o problema da validade das datas dos cartões de crédito. O problema só voltará a colocar-se, segundo as mesmas empresas, na transicção de 9999 para 10.000! Também ao nível da rede Multibanco a situação está controlada, sendo necessário apenas, em equipamentos mais antigos, a colocação de novos "chips" ou componentes. Ao nível do "software", segundo a SIBS, problema está identificado e a codificação das tarjas magnéticas dos cartões de débito mantêm-se.

Será seguro viajar de avião?

Muito se tem especulado sobre a possibilidade dos aviões ficarem em terra durante algumas horas (ou dias) no início do ano 2000. Mas, ao certo, ainda não há ainda certezas definitivas porque os anúncios são contraditórios. Algumas companhias, como é o caso da TAP Air Portugal, continuam a garantir que vão voar no dia 1 de Janeiro. Outras há (caso da holandesa KLM) que já anunciaram a decisão de não voar nesse dia. Por isso, o mellhor é esperar pelas decisões definitivas que vão ser tomadas pelas autoridades de navegação aeronáutica e pelas companhias aéreas nos últimos meses de 1999. Mas, se acalenta mesmo o sonho de passar esta data simbólica num local longínquo, o melhor é reservar desde já a passagem e a estadia porque a procura para os destinos habitualmente mais requesitados para «reveillons» não pára de aumentar. Por exemplo, a ilha da Madeira já tem os voos e as reservas para 31 de Dezembro de 1999 praticamente esgotadas.
Por que se levantam afinal tantas dúvidas em relação aos transportes aéreos no dia 1 de Janeiro de 2000? Porque um avião comercial tem alguns milhares de microprocessadores de origem muito diversa, incorporados nos instrumentos de bordo. Como a conformidade com o ano 2000 implica testes morosos e complexos, muitas companhias aéreas não vão conseguir fazê-lo em tempo oportuno. Por outro lado, há que garantir que os sitemas de controlo de tráfego aéreo e entradas e saídas nos aeroportos estejam também em pleno funcionamento. Por exemplo, a FAA, organização governamental norte-americana, que controla o tráfego aéreo nos EUA, já admitiu por vir a ser necessário interromper a navegação aérea por um ou dois dias. Um cenário que vem dar razão aos observadores mais cautelosos que garantem que o espaço aéreo irá ficar intransitável, no mínimo, algumas horas antes e depois da passagem para o ano 2000.
Para as grandes companhias aéreas, com frotas de várias centenas de aviõe permanentemente no ar, haverá um problema suplementar: o local para pousar e estacionar todas as aeronaves, já que o espaço nos aeroportos irá ficar rapidamente saturado. Uma das soluções poderá passar pelo aluguer de espaço em desertos junto de aeroportos. Empresas como a Lufthansa ou a British Airways terá contactado o governo líbio nesse sentido.

Os telefones vão funcionar?

Caso alguma central telefónica pública tenha algum "bug" de programação que ponha em causa a conformidade com o ano 2000, é possivel que existam cortes nas comunicações ou incorreções na facturação. A Portugal Telecom garante ter efectuado, em conjunto com os seus fornecedores de tecnologias de informação, um levantamento da situação e estar a fazer a manutenção dos sistemas de forma a que não haja sobressaltos. Se o leitor usar uma central telefónica privada, deve questionar o seu fornecedor sobre o eventuais disfunções que a passagem ao ano 2000 pode trazer. Por outro lado, alguns especialistas dizem existir algum risco (talvez exagerado) passar de um ano para o outro a falar ao telefone, uma vez que o sistema de facturação poderá contar 100 anos de conversa. Mas, à cautela, convém guardar os extractos de conta dos últimos anos. E se adquirir um telemóvel novo certifique-se que já é compatível com o ano 2000.

Os PC vão ter problemas?

Segundo a Solace Consulting (Londres), 93 por cento dos computadores pessoais contruídos antes de 1997 não estão preparados para passar o ano 2000. Caso se encontre nessas cincunstâncias, conforme junto do seu fornecedor sobre a compatibilidade do seu equipamento e da necessidade de uma eventual actualização da BIOS (o componente do computador que controla a data e as funções de entrada e saída). Não esqueça de fazer uma protecção ("back-up") do disco rígio do seu computador pessoal e não esqueça de imprimir os contactos e a agenda que possa ter armazenada no equipamento. Para obter mais informação sobre eta questão, pode ler o artigo "Como proteger o seu PC" nas páginas 28 a 31 deste "guia"; ou consultar alguns dos "sites " sugeridos nas páginas 32 e 33.

Haverá enganos no cálculo dos impostos?

O Ministério das Finanças tem uma "task force" em curso para garantir a conformidade com o ano 2000. Se a manutenção dos programas informáticos está a bom ritmo na máquina fiscal central (IRC, IRS e IVA), menos satisfatória é a situação a nível das pequenas aplicações. Por isso, peça ao seu contabilista uma atenção redobrada no cálculo dos seus impostos de 1999 e de 2000.

Os pensionistas vão receber a horas?

A pesada máquina da Segurança Social tem pela frente o grande desafio de tornar as suas aplicações informáticas imunes ao problema do ano 2000. As implicações sociais nefastas que um falhanço no pagamento das pensões acarretaria fez com que o problema começasse a ser "atacado" mais cedo e se encontre actulamente dentro do calendário previsto.

As farmácias vão vender medicamentos dentro do prazo?

Existe alguma preocupação que a não conformidade com o ano 2000 dos sistemas informáticos possa provocar algumas perturbações na logística e na validade dos medicamentos. Fontes ligadas à Associação Nacional de Farmácias garantem que a situação irá estar controlada. No entanto, aconselha-se os doentes que tenham de usar medicamentos com regularidade que controlem o prazo de validade e que se abasteçam antecipadamente com as quantidades necessárias

Os hospitais vão tratar dos doentes?

Trata-se de uma das áreas da Administração Pública onde a conformidade com o ano 2000 apresenta mais complexidade. É que, além dos sistemas informáticos que contêm informação de gestão e dados clínicos dos doentes, existe nas grandes unidades hospitalares uma grande variedade de material clínico e equipamento médico-cirurgico que tem semicondutores embebidos. Além do inventário e a correcção de eventuais problemas constituir uma tarefa de grandes dimensões, existe a noção de que um ano é um prazo de tempo muito escasso para o que falta fazer. Prevê-se, por isso, que em alguns hospitais seja atingido o ponto de ruptura, acabando os doentes por sofrerem os incómodos que vão resultar, por exemplo, no adiamento de intervenções cirúrgicas.

Os transportes públicos terrestres vão falhar?

Desde que a energia electrica não falte, é pouco provável que tantos os comboios, os electricos e o metropolitano tenham problemas. As empresas responsáveis pela pretação destes serviços (CP, Carris, Metro) têm vindo a trabalhar no sentido evitar eventuais problemas nos sistemas de sinalização.

As seguradoras vão engarnar-se nas contas?

A Associação Portuguesa e Seguradores alertou atempadamente as companhia do sector para o problema do ano 2000. Como a manutenção dos sitemas informáticos deve ficar concluído em tempo útil não será de esperar surpresas desagradáveis para os segurados. Recorde-se que as empresas do sector terão de ter os seus sistemas de informação com o problema resolvido em 1 de Janeiro de 1999, uma vez que a maioria dos contractos que celebram são anuais.
Mas, a questão do «bug» para as seguradoras não só tecnico-operacional, um vez que poderá vir também a afectar a sinistralidade no ramo dos negócios. Por essa razão, são várias as seguradoras que estão a excluir da cobertura das apólices os problemas do ano 2000.

Há perigo de haver cortes de energia? E o fornecimento de água?

Os serviços de informática de EDP garantem ter o sistema de facturação a salvo de qualquer erro que resulte da passagem ao ano 2000. Quanto à distribuição de electricidade, a empresa também promete tudo estar a fazer para que não haja cortes. Nesse sentido, tem prevista a constituição de piquetes para colmatar eventuais quebras no periodo mais crítico.
No entanto, os leitores deverão tomar algumas precauções. Para prevenir os cortes de energias mais prolongados recomenda-se o armazenamento de velas e enlatados na dispensa (prevenindo a eventualidade da comida do frigorífico se estragar). Em casos extremos de particulare ou empresas que não podem de modo nenhum passar sem o fornecimento de energia electrica por largas horas sugere-se mesmo a aquisição de um gerador. Ainda nesse cenário de "escuridão" prolongada, será de admitir, como consequência, que aconteçam alguns cortes no fornecimento de água, pelo que será mais seguro o armazenamento de uma reserva de segurança.
Por último, convém não esquecer a conservação das facturas da electricidade dos últimos anos, para mais facilmente fundamentar alguma reclamação. O mesmo deve fazer para os outros serviços dependentes de equipamentos de metrologia (água e gás).

Os elevadores, os sistemas de segurança e os sistemas de ventilação dos edifícios vão falhar?

Não está completamente determinado o comportamento dos elevadores e sistemas de segurança mais sofisticados (que tenham, por exemplo, sistemas de poupança de energia). Recomenda-se uma manutenção rigorosa e a responsabilização da empresa fornecedora . E convém na esquecer que uma eventual quebra de energia na passagem de ano poderá trazer contratempos no uso destes equipamentos.

Os meus electrodomésticos vão dar problemas?

Não existem conclusões definitivas sobre o assunto. Mas alguns especialistas admitem a existência de problemas nos modelos com temporizador programável. É o caso, por exemplo, de microondas, gravadores video ou máquinas de lavar.

Os automóveis podem avariar?

Os automóveis mais modernos têm um número considerável de componentes electrónicos com "chips" embebidos. É o caso dos sistemas de alarme, travões ABS, ignição, suspensões, mistura de combustível, etc.. Como nem todas as marcas garantem a conformidade com o ano 2000, certifique-se junto do seu fornecedor acerca de eventuais problemas que o seu carro possa ter e tenha cuidados redobrados nos primeiros dias de Janeiro de 2000. Se comprar agora um carro novo exija uma garantia.

Podem existir falhas de abastecimento de combustíveis?

Não se esperam rupturas no abastecimento. Atestar o depósito nos últimos dias de Dezembro de 1999 servirá apenas para prevenir alguma situação de quebra geral no abastecimento de energia electrica ou os sistemas de pagamento automáticos não estarem operacionais.

Quem está a ganhar com o problema do ano 2000?

As primeiras empresas a lucrar com o problema foram as consultoras. Depois, foi a vez das "software houses", empresas de manutenção, e fornecedores de equipamento informático começarem a facturar. Curiosamente, são algumas destas últimas empresas que, em última análise, têm uma forte responsabilidade no problema já que, num passado não muito distante, fabricaram computadores e desenvolveram programas informáticos não compatíveis com o ano 2000.
Depois desta data, adivinha-se que chegue a vez dos advogados entrarem em acção na assistência jurídica a pessoas e organizações que tenham sido lesados por terceiros que não tenham dado importância devida ao problema do ano 2000.

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