A Origem do Problema

Quando os engenheiros dos anos 40 e 50 conceberam os primeiros computadores, o ano 2000 parecia estar ainda bem longe. Como a memória dessas máquinas pioneiras era limitada e muito cara - um Megabyte de disco magnético custava em 1965 quase 800 dólares, quando agora custa meio dólar -, a representação da data-ano em apenas dois dígitos («60» era o mesmo que «1960») acabou por se tornar num procedimento normal. A convicção de que os outros dois dígitos eram dispensáveis foi-se generalizando ao ponto de, na década de 90, já com o ano 2000 no horizonte, muitos fabricantes continuarem a persistir no desenvolvimento de sistemas e equipamentos com a data abreviada.

Porque podem os computadores falhar no dia 1 de Janeiro de 1999? Muito simplesmente porque esse formato abreviado de data não permite a algumas destas máquinas distinguir os «00» do ano 2000 dos «00» de 1900. Por exemplo, se um programa de computador (não conforme com o ano 2000) fizer um cálculo financeiro as consequências podem ser caóticas. Podem surgir valores negativos e operações aritméticas absurdas como, por exemplo, divisões por zero.

Mas, o problema foi-se revelando bem mais complicada do que chegou a supor. O «bug» do ano 2000 não dizia apenas respeito aos grandes computadores e às aplicações de gestão empresarial mais antigas, programadas nas velhas linguagens (por exemplo, em Cobol). Afectava também a micro-informática e muitos outros equipamentos de micro-electrónica, caixas negras com «software» «embebido» e outros equipamentos com relógios internos dos quais, muitas vezes, dependem vidas humanas. Imagine-se, o caso, por exemplo, de um grande hospital. Se o «bug» do ano 2000 provocar um corte prolongado no abastecimento de energia e não existir uma fonte alternativa, as consequências podem ser dramáticas porque a vida de alguns doentes pode correr sério perigo. Mas, os perigos não acabam aí, porque o problema das datas também pode surgir nos sistemas de diagnóstico, no material cirúrgico, no aquecimento (recorde-se que o 1 de Janeiro acontece no pico do Inverno) ou nos elevadores. Nesse cenários pessimista, dificilmente os utentes não deixarão de sofrer fortes inconvenientes.

Já na segunda metade da década de 90, o "bug" do ano 2000 foi ganhado, pouco a pouco, algum espaço nos media portugueses. Mas sem que, salvo raras excepções, fosse levado muito a sério pelos responsáveis das empresas e pelos políticos. Somente a dois anos de distância do problema - em finais de 1997 início de 1998 - parecem Ter acordado sobressaltados para a dimensão do problema e para o pouco tempo que restava para o solucionar. Com a agravante dos recursos humanos habilitados para a identificação e correcção do "bug" estarem a escassear em Portugal e no mundo inteiro. Por isso, a um ano de distância da famosa data receia-se que as previsões pessimistas do Gartner Group para o mundo inteiro - segundo as quais cerca de metade das organizações não irá fazer a mudança dos seus sistemas a tempo - também se aplique á realidade portuguesa.

Apesar de todo este esforço para tornar os programas informáticos compatíveis e detectar os sistemas embedidos com problemas - uma acção que está a concorrer directamente com a conversão para o Euro - alguns economistas prevêem que o problema do ano 2000 traga consigo uma recessão mundial no início de 2000, consequência da desorganização momentânea de alguns circuitos logísticos e comerciais e do efeito dominó que eventuais falências em cadeia possam vir a provocar.

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