António Morais (Assoft)
«PME Portuguesas Desconhecem Riscos»

Autor do único livro editado em Portugal sobre o problema do ano 2000, António Morais tem vindo a desenvolver, na qualidade de presidente da Assoft (Associação Portuguesa de Software) uma intensa actividade no País inteiro de divulgação e esclarecimento do tema, no âmbito de um «road show» organizado pela Comissão Euro-Empresas e pelo IAPMEI. A sua observação no "terreno" vem confirmar a situação preocupante em que se encontram a maiora das PME portuguesas


Qual é o diagnóstico que faz do problema do ano 2000 nas PME portuguesas? As conclusões do inquérito lançado pela Assoft que davam conta de falta de informação continuam a ser verdadeiras?

A.M. - As 15 sessões já realizadas em todo o País, que tiveram uma presença superior a 4.000 pessoas (muitas delas representando pequenas empresas e comerciantes) confirmam os resultados dos inquéritos lançados pela Assoft no 1º Semestre de 1998. Mais de 50 por cento desses empresários sabem que existe um risco real, mas não sabem exactamente qual. Cerca de 60 por cento ainda não avançaram para qualquer estudo ou acção de formação (a maioria das respostas ao questionário diz que as primeiras iniciativas só vão arrancar em 1999 !...). E 90 por cento ainda não tem qualquer orçamento estimado.

Existe a possibilidade de algumas cadeias de valor poderem vir a ser afectadas?

A.M. - Pensamos que sim, se o estado actual das coisas não for substancialmente alterado. A nossa maior preocupação está a centrar-se nos pequenos comerciantes e PME´s que sentem o peso acumulado da necessidade /obrigação de se prepararem para o EURO (que lhes é apresentado como um desafio estratégico para a sua evolução e sobrevivência) e de terem que substituir ou corrigir alguns equipamentos do seu dia-a-dia ( fax, central telefónica, POS, máquinas registadoras, balanças electrónicas, etc.) que não estavam nos seus planos de curto prazo. Ora, segundo as últimas estatísticas, o problema afecta uma fatia substancial de 150.000 PME´s e 220.00 pequenos comerciantes e retalhistas, para além dos empresários em nome individual (técnicos de contas , consultores e muitos outros) que também já dependem fortemente das Tecnologias de Informação. É fundamental que estas empresas se sintam mais apoiadas pelo Estado e pelas grandes empresas que com elas se relacionam (cadeias de distribuição, banca, seguros).

Que tipo de acções será (ainda) possível fazer para solucionar o problema?

O problema do ano 2000 assemelha-se a uma intervenção cirúrgica. Desde o médico de clinica geral que pressentiu o problema no paciente, passando pelo especialista que diagnosticou, aos conselhos de médicos que decidiram a operação até à equipa do bloco operatório que efectuou a intervenção (sem esquecer o período de acompanhamento pós-operatório), todos têm um papel fundamental na cura do doente. O problema do ano 2000 é também uma "doença" que tem que ser curada por uma equipa forte de "cirurgia"...
A resolução do problema, em minha opinião, passava pelo lançamento de um projecto nacional (integrando as forças do Estado e da Sociedade Civil) liderado por alguém que coordene as actividades dessas entidades, de uma forma integradora e cooperante. Alguns países já seguiram essa via. Competiria também a essa entidade a análise e definição urgente de quais são os sistemas críticos ( públicos ou privados) que não podem deixar de ser mantidos e corrigidos, bem como os Planos de Contingência prioritários a criar, no caso de haver problemas sérios.

A escassez de recursos humanos vai deixar algumas dessas organizações sem possibilidade de resolver o problema do ano 2000?

A.M. - Certamente que sim. A atitude "esperar para ver " e copiar o que de melhor os outros estão a fazer não vai funcionar para este problema. Se não fizermos no pouco tempo que nos resta as correcções aos sistemas informáticos e em milhões de equipamentos e máquinas ferramentas com software embebido, é inevitável que se faça sentir o efeito "funil": faltarão peças, componentes, capacidade de resposta das empresas fornecedoras e, principalmente, as pessoas para resolver os problemas. Consequentemente, os custos aumentarão em flecha .

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