À Espera de um Não Acontecimento

Diferentes sentimentos e estados de espírito vão eclodir quando soarem as 12 badaladas que assinalam o nascimento do ano 2000. Enquanto alguns «movimentos de sobrevivência» nascidos nos EUA, vão reunir-se em locais recônditos da Terra, receando que a civilização actual possa entrar em colapso, a maioria da população não vai pensar em cenários apocalípticas e vai festejar ruidosamente nas ruas.

Entre os políticos e empresários e "gurus", os estados de espírito também divergem. Enquanto alguns alinham pelo pessimismo, chegando a prever uma forte recessão na economia mundial e falências em cadeia. . Outros assumem uma postura optimista e procuram transmitir confiança. O Ministro da Ciência e Tecnologia, Mariano Gago preferiu alinhar claramente por este último grupo quando, em entrevista ao «Público», apelidou de «alarmistas e irresponsáveis as afirmações segundo as quais o problema do ano 2000 iria provocar uma desaceleração da actividade económica». Se esta posição de combate ao alarmismo tem toda a legitimidade num governante, já a atitude de censurar o relatório produzido pela Missão da Sociedade da Informação acabou por provocar o efeito oposto.

Para que o problema do ano 2000 se venha a tornar num não-acontecimento, como é o objectivo do Governo português, é da maior importância, numa sociedade democrática e transparente, que a população seja informada com verdade e sem censura sobre o grau de conformidade dos organismos do Estado em relação ao problema do ano 2000.

Se o ano 2000 vier a tornar-se num «acontecimento» com repercussões em algumas áreas, fontes próximas do Governo, menos optimistas do que Mariano Gago, receiam que o crescimento económico do País e o bem-estar social possam ser afectados. E que se criem conflitos entre os diversos sectores sociais, com os prejudicados a tentarem resolver pela via litigiosa os prejuízos provocados por terceiros que não se preocuparam com o problema informático do ano 2000.

Finalmente, a decisão do Executivo de criação de planos de contingência em alguns sectores é acertada, mas não deixa de não ser uma forma de assumir implicitamente que existem zonas da vida nacional que sobre as quais dificilmente vai ser possível fazer uma avaliação. Ou que não vão conseguir estar preparados para o problema informático do ano 2000 em tempo útil.

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